SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:00

O que dá não é ser ministro, mas ser-se ex-ministro!

Na semana em que tanta coisa aconteceu a nível desportivo, pensei escrever sobre os feitos da nossa selecção de futebol, da nossa selecção de atletismo, da nossa selecção de canoagem, da nossa selecção de hóquei em patins, etc., mas como já tanta gente disse tanta coisa, como já foram feitas tantas entrevistas, como já foram feitas tantas homenagens, como os órgãos de comunicação social exploraram todos esses feitos, entendi que não valia a pena estar a dizer o que já tinha sido dito até à exaustão, no entanto, se me for permitido, ainda sugiro a Belém que faça uma revisão ao Orçamento para que as Medalhas não faltem.

Mas na semana que acabou houve muito mais para além dos feitos desportivos, houve de tudo um pouco ou, melhor, de tudo muito. Desde o romance das sanções, ao Conselho de Estado, às notícias sobre as reestruturações hospitalares aqui na nossa região, aos grandes incêndios que já por aí proliferam, ao atentado de Nice, à tentativa de golpe de estado na Turquia, mas também à escolha de Durão Barroso para Presidente, não executivo, do maior Banco mundial, o Goldman Sachs, tão grande e com tanta má fama.

Sobre esta última escolha penso que é oportuno dizer algumas palavras apesar de muito já ter sido dito também, desde os grandes elogios até às grandes críticas, a começar pelo Presidente da França.

Este caso de Durão barroso, não sendo virgem, é emblemático. Aliás, não é a primeira vez que ele salta. Ainda novo saltou do MRPP para o PPD. Chegou Primeiro-ministro depois de ter sido Ministro e depois de ter sido Secretário de Estado. E de um dia para o outro abandonou o país e saltou para Presidente da União Europeia. Por ali esteve uma série de anos e depois de ter ganho o direito a uma belíssima reforma, eis que passado um ano e pouco, salta para o tal Banco que segundo alguns jornais continua a crescer todos os dias, nem sempre com as melhores regras de mercado, mas com as maiores com que vai especulando aqui e ali, por esse mundo fora.

Durão Barroso não foi o primeiro nem será o último a dar este tipo de salto. Ainda recentemente a ex-ministra das finanças e agora Deputada Maria Luís Albuquerque não enjeitou o convite para ser administradora não executiva da Arrow Global, uma empresa britânica que, para além de outros negócios, também compra créditos a empresas em dificuldades, como é o caso de alguns bancos e concretamente como foi o caso do Banif, como também Paulo Portas saltou para a Mota Engil, como o Jorge Coelho também para lá tinha ido, o Vitor Gastar já tinha saltado para o FMI, o António Vitorino que esteve nos CTT também saltou para o Santander, o Mexia e o Catroga também foram para as prateleiras douradas da EDP, e tantos, tantos outros que ao longo dos anos têm tomado opções semelhantes e aproveitado as oportunidades que lhes põem à frente.

Razão tinha Raul Rego quando escreveu o seu livro, “Diário Politico” – “Os políticos e o poder económico”, em 1969 que, claro, foi proibido pela Censura de então e só republicado em Junho de 1974. E para justificar melhor a razão que aponto a Raul Rego, permito-me transcrever do já citado livro, da sua página 64 e referente ao dia 5 de Agosto daquele ano de 1969:

“No “Diário do Governo” vem a nomeação do antigo subsecretário de Estado das Finanças dr. Manuel Tarujo de Almeida para comissário do Governo junto do Banco Nacional Ultramarino.

Assim se continua a tradição do Estado Novo de não deixar nenhum dos seus servidores em posto de governo, sem um chorudo emprego. A lista é impressionante desses ex-ministros e es-sub-secretários de Estado, encaixados em bancos e companhias. Corre até a história de alguém ter felicitado um homem público, no dia em que tomou posse do cargo de ministro. Resposta dele:

– Felicita-me é quando eu sair do cargo. O que dá não é ser ministro, mas ser-se ex-ministro!”

No final que dizer mais?

Mudam-se os regimes mas as recompensas continuam. E no meio das crises, por maiores que elas sejam, como é caso da presente, há gente que nem sabe o que isso é, como já era antigamente.

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