SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 11:57

Os políticos e o poder económico

Começo este artigo por esclarecer que o titulo acima é uma transcrição do nome da obra de Raul Rego – Diário Político – os políticos e o poder económico, reeditada em Junho de 1974 depois da primeira edição saída no período eleitoral de 1969 ter sido apreendida pela PIDE.

Para que melhor se possa compreender a comparação que se pretende fazer entre o ano de 1969 – os políticos e o poder económico – e o momento presente, passo a transcrever o primeiro apontamento daquele livro:

“Dia 7 de Junho de 1969

O Relatório e Contas do Caminho de Ferro de Benguela que hoje vi são singularmente elucidativos do momento português. O exercício de 1968, o 65º, pode servir de modelo ou símbolo de uma situação que deixa alguns encher-se, encher-se como o sapo da fábula. Somente quem rebenta é o pobre empregado médio, o funcionariozinho sem aspirações e sem futuro, aquele que só tem por si o seu braço ou o seu campito para cultivar.

Tem onze administradores, a empresa, entre eles um antigo ministro e actualmente presidente da Câmara Corporativa, o dr. Luís Supico Pinto, um almirante e um coronel. Delegado do Governo um antigo ministro do Exército, o coronel Luz Cunha.

Como se vê, o habitual.

O lucro líquido do exercício desta companhia inglesa, onde se encontram amesendados alguns portugueses, foi de 253.507 contos. Desta verba são deduzidos logo 12.675 contos para a administração. À parte os ordenados, ajudas de custo, despesas de representação que a esses onze administradores foram pagos no decorrer do ano – e que não devem ter sido nada mesquinhos – cada um deles recebe, de uma vez só, mais de mil contos!” Fim de transcrição.

Agora, neste ano de 2016, passados que são mais de 46 anos, a situação não sendo igual não deixa de ter muitas semelhanças, como é o caso das remunerações dos quadros superiores da empresa de capitais chineses EDP – a outra era de capitais ingleses – só que, actualmente, alguns órgãos da comunicação social dão-nos notícia dos números, como é caso do “Dinheiro Vivo” de 19.04.16, com pormenores extraordinários, e passo a fazer algumas transcrições: -“EDP altera política de remunerações. Mexia pode receber até 2,6 milhões”. Logo a seguir a notícia refere: -“ O presidente executivo (CEO) da EDP, António Mexia, vai ganhar, no máximo, 2,6 milhões de euros de ordenado no final deste ano, isto incluindo as três componentes que compõem o seu salário, ou seja, a parte fixa, a parte vulnerável anual e a parte variável plurianual. O aumento – que é de cerca de 700 mil euros – foi a votos esta terça feira à tarde na Assembleia Geral de accionistas no seguimento da aprovação da nova política da empresa.”

Mas esta política não deixa de ter reflexos noutros cargos como a seguir se confirma: -“… os salários fixos anuais do administrador financeiro (CFO), Nuno Alves, e do administrador da EDP e presidente executivo da EDP Renováveis, João Manso Neto, também vão subir, passando de 480 mil para 560 mil euros cada um. Já os outros elementos do Conselho de administração vão manter a sua remuneração anual fixa nos 480 mil euros, mas como há as referidas alterações no salário variável, o ordenado final destes administradores será também superior.

Assim, o ordenado final anual – que junta a componente fixa e a variável – do CFO e o presidente executivo da Renováveis poderá chegar aos 3,6 milhões de euros, mas a dividir por ambos. Já os restantes membros da administração poderão receber, no seu conjunto, até 7,7 milhões de euros. Contas feitas, a EDP pretende gastar 13,9 milhões de euros com o Conselho de Administração Executivo em 2016. O ano passado gastou pouco mais de 10 milhões de euros”.

Mas há mais, a saber: -“A isto juntam-se depois as remunerações do Conselho Geral e de Supervisão (CGS) onde têm assento Eduardo Catroga, os representantes dos accionistas e ainda membros independentes e que, o ano passado totalizaram cerca de 1,7 milhões de euros, mas que este ano também será superior, pelo menos por via do aumento do salário de Catroga que passará de 490,5 mil para 515 mil euros. … Esta é, aliás, a única remuneração a subir no conjunto dos 21 elementos do CGS. As restantes ficam na mesma, sendo de 72 mil euros para o vice-presidente, nesta caso Luís Amado, e de 47 mil para todos os outros, entre eles Celeste Cardona, Braga de Macedo, Ilídio Pinho, António Vitorino ou Augusto Mateus. Contudo, se qualquer um deles tiver outro cargo na Comissão de Vencimentos ou na de Sustentabilidade, receberá mais.”

Na mesma notícia há mais nomes falados, como sejam, de entre outros, João Carvalho das Neves, Joaquim Rocha Vieira, Luís Cortes Martins, José Gonçalo Maury e Jaime Amaral Anahory mas não interessa estar aqui a pormenorizar mais situações porque é evidente que se trata de cargos muito bem remunerados.

Só mais um pormenor a acrescentar através de outra notícia, neste caso “Económico” de 21.04.16, com o título: – “Seixas da Costa e Nogueira Leite na EDP Renováveis”. E no texto é indicado que “o Conselho de Administração concordou em aumentar o número de membros da Comissão de Nomeações e Retribuições”, “passando o mesmo a ser constituído por quatro elementos: João Manuel de Mello Franco (chairman), António do Pranto Nogueira Leite, Acácio Jaime Liberado Mota Pinto e Francisco Seixas da Costa”.

É certo que os tempos são diferentes. No primeiro caso estávamos no declínio do estado novo, já na primavera marcelista, no declínio da ditadura e agora estamos em democracia, madura, mas não se sabe se segura. Por outro lado, no caso de 1969 tratava-se de uma empresa inglesa, e neste caso de 2016 trata-se de uma empresa cujo maior accionista é uma empresa pública chinesa. O resto é tudo semelhante.

A terminar, só mais uma palavra. Nestes tempos de crise, como antigamente, há, como sempre houve, muita gente que não sabe o que isso é. Ainda bem para eles.

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