SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 17:57

“Recordando o Natal daqueles tempos”

Já lá vão muitos anos, mais de sessenta, mas é bom puxarmos pela memória para recordarmos como era o Natal nessa época do após guerra.

Com mais ou menos frio próprio da época, parecia que toda a gente andava empenhada em dar algum brilho a essa quadra diferente.

Os miúdos andavam a procurar os melhores sítios para apanharem o musgo para o presépio. E encontravam-no naquelas oliveiras muito grandes e já velhas, mas também nas ribanceiras. Cada um procurava o melhor, mas também ajudava os seus amigos na mesma busca e recolha.

As pedras, para se fazer a gruta e as elevações do terreno, essas facilmente se encontravam em qualquer monte. Era só escolher as que melhor se podiam aplicar, e levar para casa.

As figuras já existiam de anos anteriores. Era o Menino Jesus, S. José e Nossa Senhora, mas também a vaca e o burro para aquecerem o Menino. No alto da gruta, para além dos Arcanjos e da Estrela, também lá estava o galo para cantar ao amanhecer do dia. Mas o presépio também tinha o pescador e, claro, os pastores e o seu gado, sem esquecer o cão de guarda. Também lá estavam as casinhas, os ribeiros, as pontes e a igreja e ao longe também já se viam os Reis Magos, a serem guiados pela estrela, e que haviam de chegar à gruta no dia de Reis para darem ao Deus Menino as suas prendas

Era uma festa, especialmente para a gente pequena, que se renovava todos os anos.

Naquela altura ainda não tinham chegado as modernices do Pai Natal nem a Árvore de Natal. Era o presépio e a bota, ou o sapato, na chaminé a ver se o Menino Jesus trazia alguma prenda.

De facto já se sonhava com as prendas, mas nada do consumismo dos últimos anos. Os brinquedos eram de madeira ou de lata e era um consolo quando um caía na bota. Mas as melhores prendas acabavam por ser as meias, as camisolas ou algum boné para a cabeça porque de resto já havia a certeza do “rancho melhorado” lá em casa, onde também não faltavam os fritos.

À meia-noite havia a Missa do Galo na Igreja Matriz. Mas antes disso já o adro da igreja estava pejado de lenha, de árvores inteiras, para que a fogueira durasse até de manhã. Era a tradição.

A Missa era rezada com uma solenidade própria dos dias festivos da Igreja. E nessa noite a igreja enchia até não levar mais gente. Sentia-se algo de diferente. Mesmo com o frio da noite, cá dentro, sentia-se um calor humano, que não era derivado do calor da fogueira.

Em casa, as mães e as avós também tinham andado nos últimos dias numa lufa lufa constante. Eram as limpezas da casa, era a procura da galinha para servir de prato forte no dia de Natal. Era a procura do bacalhau que também não podia falta na noite da Consoada e o “fiel amigo” nessa altura andava muito fugidio. Mas sempre se arranjava algum. As couves também não faltavam e o belo azeite da serra, para regar o prato, também estava presente.

Por vezes, enquanto as mães preparavam os fritos, também se arranjava tempo para se grelhar uma febra de porco nas brasas da chaminé. Era uma noite diferente em tudo.

A garrafa de tinto também compunha a mesa, se bem que os mais novos não lhe tocavam.

O maior trabalho era das mães. Era todo o trabalho da casa e da cozinha mas especialmente a preparação das massas para os fritos. Era um trabalho interessante que os mais novos nunca perdiam de vista. Amassar, levedar, estender e depois fritar os coscorões, muito finos e estaladiços que eram polvilhados com açúcar pilé com um pouco de canela, mas também as filhoses e as velhoses, depois de amassadas e preparadas para a fritura, também eram polvilhadas com o mesmo açúcar e a mesma canela. Depois tudo era colocado, separadamente, naqueles alguidares grandes de barro vidrado e tapados com um pano de linho para mostrar o esmero da casa e da cozinheira, de onde depois das refeições, durante uma série de dias, se tiravam alguns fritos para servir de sobremesa.

Voltando ao final da Missa, que terminava sempre com a cerimónia de se beijar o Menino, já passava da uma hora e os mais pequenos, apesar de alguns terem dormido uma sesta de tarde, já sentiam o peso do sono na cabeça e nos olhos. Mas ao saírem da Igreja lá estava a fogueira, bem acesa a despertar-lhe a curiosidade já que se tratava de acontecimento raro.

Mas os olhos tinham que estar ainda abertos para, quando se chegasse a casa, ainda se ir ver a bota e se havia mais alguma coisa para além do tal par de meias.

No dia de Natal voltava a haver Missa ao meio-dia. A fogueira do adro ainda ardia mas as chamas já eram pequenas. Lá dentro, as cerimónias religiosas voltavam a acabar de novo com o beijar do Menino. Cá fora, se o tempo não ameaçasse chuva, já se mostravam as coisitas novas que o Menino Jesus tinha posto na bota ou no sapatinho.

Depois era o almoço. Começava sempre com uma canja de galinha, feita com sopa de pão e um raminho de hortelã até que depois vinha a galinha corada para a mesa, com a travessa do arroz corado no forno, arroz doce para compor a refeição, e depois os fritos da época e da véspera.

Era o Natal dos simples. Mas era saudável e sempre esperado pelas crianças.

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