SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 20:31

Bombeiros Voluntários Torrejanos

O seu Corpo de Cadetes comemorou 80 anos no mês de Setembro

Rebuscando baús de memórias, como é o caso do livro “ASSOCIAÇÃO HUMANITÁRIA DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS TORREJANOS 1931 – 1985, 54 anos ao serviço da comunidade”, de Ana Maria L. D. Paiva, da página 32 do referido livro, passo a transcrever com a devida vénia: “CORPO DE CADETES – Os BVT orgulham-se de ter sido a primeira corporação do país a ter um corpo de cadetes.

Por iniciativa do Dr. Sousa Dias, foi criada em Setembro de 1935 a primeira escola de cadetes, sendo a inspecção feita nos dias 16 e 17 de Outubro daquele ano, a rapazes entre os 14 e os 18 anos.

A 1 de Dezembro do mesmo ano foi organizada uma pequena festa na qual se procedeu à apresentação dos cadetes, os quais receberam a sua bandeira em 16 de Fevereiro de 1938.”

Entretanto, mão amiga, fez-me chegar um exemplar da Revista TURISMO – Revista de Hotéis, Viagens e Actualidades, precisamente o seu nº 28, de Janeiro de 1940 – Primeiro Número da Série “Comemorações dos Centenários” dedicado a Torres Novas de onde se destaca, de entre muitos outros artigos sobre a então Vila de Torres Novas e seu concelho, um artigo sobre os BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS TORREJANOS, da autoria do Médico da Corporação, Dr. Sousa Dias e que pelo seu interesse histórico passo a transcrever para conhecimento geral:

“CONFESSO que foi com satisfação e alegria que recebi o convite para escrever duas palavras sobre os Bombeiros de Torres Novas e seu Corpo de Cadetes, no presente número de Turismo. Não porque me considere a pessoa mais indicada para tal, mas tão sòmente porque isso me proporciona o ensejo de fazer notar e de exaltar os esforços enormes e as dedicações sem limites e obscuras com que a nossa Corporação tem contado; esforços e dedicações desinteressadas que fizeram o milagre de em poucos anos “construir” uma Corporação com todas as peças necessárias que a impôs não só ao respeito e consideração dos seus conterrâneos como também à admiração das suas congéneres de outras terras do país, muitas delas bem mais ricas e mais antigas do que a nossa.

Está plètórica de vida a Associação dos Bombeiros de Torres Novas.

Está anciosa por progredir, melhorar, sobressair e bem servir a humanidade e a sua terra. Não a desanimem nem a desamparem.

Pouco tem ela pedido aos poderes públicos e aos seus conterrâneos.

Quási que tem caminhado com os seus próprios meios.

Estava em Torres Novas arreigada a crença de que todas as manifestações associativas cá do burgo, estavam condenadas a falhar ou a estiolar e morrer. Pois nós, bombeiros, temos a satisfação e o orgulho de opor a tal crença o mais formal desmentido pela nossa actuação e de podermos garantir e afirmar aos torrejanos que a sua Corporação de Bombeiros jamais morrerá. Tudo foi preparado e trabalhado nesse sentido.

Mas o auxílio particular e o da Câmara não têm faltado, dirão. Não há dúvida. A Câmara tem feito o que tem podido e tem atendido sempre os bombeiros com interesse, carinho e simpatia, mas é pobre e tem grandes problemas às costas para resolver. O auxílio particular também tem acorrido mas – é triste dizê-lo – solicitado. Por vezes fortemente solicitado até. Daqueles benfeitores que oferecem um quartel, um pronto socorro, uma ambulância, etc., que os há por esse país fora, ainda não encontramos em Torres Novas, mas talvez apareçam.

Agora reparo que ainda não comecei as tais – duas palavras.

A Associação Humanitárias dos Bombeiros Voluntários Torrejanos – é este o seu verdadeiro nome, é muito jovem ainda. É das mais jovens Associações de Bombeiros do país. Só lá para Outubro deste ano completa nove anos de existência.

Foram seus fundadores – é bom não esquecer -: Major Afonso Talaia Lapa de Sousa Botelho, Augusto Bretes Teixeira Vasconcelos, Manuel Ferreira Júnior e Virgílio Maia dos Santos.

Foi inaugurada solenemente em 5 de Outubro de 1931, no edifício da extinta capela de N. S. da Luz, à Rua Direita nº 80 onde ainda hoje conserva o seu quartel de material e posto de socorros.

Trata-se de um edifício velho, acanhado, estreito, escuro, húmido, frio, absolutamente impróprio para um quartel de Bombeiros.

É aqui que tem vivido estes nove anos a Corporação, um verdadeiro período heróico da sua existência, cheia de abnegação, com uma grande fé e uma grande confiança em que justiça há-de ser feita ao seu esforço e dedicação e que cedo ou tarde há-de ter instalações condignas, as instalações que merece.

Nestes nove anos, sob o impulso de direcções competentes, a primeira da presidência do Dr. José Schiappa, a segunda sob os acertados e competentes comandos dos Srs. Major Mário Cunha e capitão Oliveira, conseguiu já os seguintes e incontestáveis triunfos:

1º – Brilhante e notável representação nos trabalhos e concurso do Congresso de Tomar em 1934. Condecoração.

2º – Notável e brilhante apresentação na Grande Parada de Bombeiros em 1935. Condecoração.

3º – Em 1936, nas festas da Cidade de Santarém, apresenta-se a Corporação com o seu Corpo Activo e com uma novidade: “Um Corpo de Cadetes constituído por 35 rapazes escolhidos de entre 10 e 16 anos. “Este fez a sua apresentação numa correcção impecável o que causou admiração da numerosa assistência pela rapidez e perfeição dos seus exercícios de dextresa e de sinalisação que a assistência também aplaudiu com calor”. (Artur Gonçalves). Condecoração.

4º – No ano seguinte, também se fez representar com brilho na grande romagem ao soldado desconhecido, à Batalha.

Finalmente, em 1938, no Congresso dos Bombeiros em Portalegre, encheu-se então a Corporação de prestígio. Condecoração ao Corpo Activo, Condecoração ao Corpo de Cadetes. Taça de Prata ao Corpo de Cadetes.

Tinha agora que dizer também duas palavras “sobre os “Cadetes”.

Estou demasiado ligado desde a fundação a este magnífico e simpático Corpo para dele poder falar com justiça e sem vaidade. Vou pois dar a palavra ao “Almonda” de 18 de Junho de 1938, que noticiou a nossa actuação no Congresso de Portalegre.

“Às 11 horas, na 4ª sessão do Congresso foi discutido o parecer da Comissão Técnica à tese apresentada pelo médico da nossa Corporação, Sr. Sousa Dias, àcêrca da criação de Corpos de Cadetes junto das corporações de Bombeiros. A Comissão terminou por achar a tese digna do nosso caloroso aplauso bem merecendo a apreciação e a aprovação do Congresso.

Bombeiros Voluntários Torrejanos

Corpo de Cadetes e Material de Incêndio

(Fotografia da Revista TURISMO – Direitos Reservados)

A tese foi aprovada reconhecendo-se oficialmente o Corpo de Cadetes de Torres Novas e resolveu-se ainda que qualquer cadete inutilisado em serviço beneficiaria das mesmas regalias que a Liga concede aos Bombeiros.

Na tarde de sábado as três corporações de Espinho, Portalegre e Torres Novas fizeram diversos exercícios, salientando-se o Corpo de Cadetes de Torres Novas que recebeu fortes aplausos pelos seus exercícios com bandeiras, ginástica e jogos. O Corpo Activo mostrou a sua perícia e a sua técnica superior honrando a sua Corporação, a sua terra e os seus instrutores.

No domingo na sessão de encerramento foi resolvido pela mesa oferecer ao Corpo de Cadetes de Torres Novas uma taça em virtude da sua brilhante apresentação.

Foi uma jornada gloriosa da nossa Corporação que brilhou não pelo seu material, mas sim pelo aprumo dos rapazes. A Câmara oficiou à Corporação felicitando-a pela sua brilhante figura e por ter sabido honrar o nome da sua terra”.

E como estas duas palavras já vão muito compridas, vou terminar. Não o faço, porém, sem fazer salientar as nossas aspirações de momento. A Corporação tem necessidade urgente de um quartel digno desse nome, de um carro de material e de um carro tanque. Com vista aos beneméritos!

Sousa Dias

Médico da Corporação”

(Escrito com a ortografia da época)

Depois de ter tido acesso a este documento histórico e a esta brilhante dissertação sobre a criação dos Corpos de Cadetes de Bombeiros em Portugal, entendi por bem divulgá-la nesta altura em que o Corpo de Cadetes dos Bombeiros Voluntários Torrejanos – o 1º de Portugal -comemorou 80 anos desde a sua criação e ao mesmo tempo na altura em que a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Torrejanos comemora o seu 84º aniversário, com os votos de parabéns neste significativo e merecido período de festa para os Bombeiros Torrejanos.


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