SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 16:05

A Reabilitação Urbana e o seu contrário

Quando se sentem as Câmaras Municipais motivadas e empenhadas em promover a Reabilitação Urbana dos seus Centros Históricos, como foi a recente apresentação pública, por parte da Câmara Municipal de Torres Novas, da URBnovas, Projecto de Reabilitação Urbana de Torres Novas, ficamos pasmados quando empresas públicas fazem exactamente o contrário, procurando desbaratar património que há muito deveria ter sido classificado procurando mercado para edifícios abandonados e que como já se disse há muito deveria ter sido classificado porque tinha, e ainda tem, todas as condições para isso.

Concretamente refiro-me à REFER, herdeira do património imobiliário que foi da CP e que, por força do encerramento de muitas linhas de caminho de ferro, numa política que nunca compreendi, tem à venda Estações, Apeadeiros, terrenos com vista para o mar, apartamentos, lotes, etc,.

Segundo o Público de 05.01.15, numa notícia com o título “Quer comprar uma estação de caminhos-de-ferro?”, aparece ali de tudo um pouco do Norte ao Sul do país. Diz ainda a referida notícia que “A crise trocou as voltas ao negócio da Refer Património. As vendas e concessões têm sido fracas e as receitas escassas. Mas vem aí um novo fôlego com a fusão da gestora de infra-estruturas ferroviárias com a Estradas de Portugal. António Ramalho que preside à comissão destinada a integrar as duas empresas numa só, já anunciou que a venda de activos vai permitir encaixar muitos milhões à futura empresa Infra-estruturas de Portugal”.

Porém, na notícia acima referida, nada é dito acerca da Escola Camões e Bairro Camões no Entroncamento, mas o certo é que essas construções emblemáticas que marcaram uma época, também estão à venda segundo artigo, oportuno e esclarecedor, do “Entroncamentoonline” de 09.01.15, da autoria de Carlos Matias, com o título “Bairro e Escola Camões: “Oportunidade de negócio” ou a cidadania contra “o mercado””.

Custa a acreditar, mas deve ser verdade que aquele edificado também está a venda, à espreita de uma oportunidade de negócio. Segundo o referido artigo, citando o site da empresa, “é anunciado “um antigo bairro ferroviário com 17800 m2 de terreno e uma área de construção em moradias de 5000 m2.””

E continuo a transcrever: “Assim, sem mais. Nem sequer uma breve referência ao pioneirismo histórico da solução urbanística, ou ao currículo brilhante dos seus projectistas, Cottineli Telmo e Luís da Cunha”.

“Para além de ignorar a valia sentimental do bairro e da Escola para o Entroncamento, a Refer passa por cima da sua real valia histórica para o concelho, para a região e até para o país. Como a Refer quer dinheiro, o mercado que assegure – ou não, tanto lhes faz – a manutenção de um património de reconhecida dimensão histórica e cultural”.

Nos tempos que correm já nada é de admirar. Mas tudo o que certa gente pensa, vai-se concretizando porque as pessoas vão consentindo, calando-se. Penso que aqui o assunto pode, e deve mudar de figura. A Câmara Municipal do Entroncamento tem uma palavra a dizer e já disse, segundo o “Entroncamentoonline” de 14.01.15, “A Câmara Municipal do Entroncamento apresentou à Refer uma proposta de compra do Bairro Camões, pelo valor simbólico de 1 Euro, depois de ter tomado conhecimento que a Refer Património tinha colocado à venda um conjunto de imóveis no Entroncamento, entre os quais o Bairro Camões.” Mas disse mais ainda, segundo a mesma notícia: “Os bairros ferroviários, em particular o Bairro Camões, constituem um património importantíssimo da história e arquitetura da nossa cidade e da própria ferrovia, pelo que temos a obrigação coletiva da sua preservação”, justificando a proposta apresentada com o facto da Refer, não ter apresentado meios para o fazer e “tendo decidido colocar à venda este património coletivo, serve a presente para comunicar a V. Exas, que esta Câmara Municipal não viabilizará qualquer solução construtiva para aquele espaço que não mantenha a traça arquitetónica e caraterísticas que o caraterizam”.

Ainda bem que a Câmara do Entroncamento tomou esta decisão, como aliás seria de esperar. Aguardemos pois o desenvolvimento do processo, pois apesar de não haver Ministro da Cultura, pode ser que alguém do Governo, com sensibilidade suficiente, tenha a coragem necessária para ordenar à tal Refer que, para já, suspenda o anúncio de venda deste património. É o mínimo que se pode esperar para já.

Aguardemos.

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