SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 20:46

A economia paralela e a do trapézio …

Na semana, que já passou, em que todos pudemos assistir, ao vivo e a cores, às “explicações” de vários ramos da família Espírito Santo acerca da trapalhada que fez ruir aquele grupo centenário, na generalidade, todos os órgãos de comunicação social, na mesma semana, deram realce às declarações do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF), da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, que anunciou que o índice da economia paralela aumentou 0,26% face a 2012, mais um recorde de 26,81% do PIB.

Segundo as mesmas notícias, o peso da economia paralela já vale seis orçamentos do Ministério da Saúde ou 60% do empréstimo da troika.

É uma realidade que já vale 45.901 Milhões de euros, que escapam ao controle do Estado e ao consequente pagamento de impostos.

Quanto a mim, estes números não passam de números porque é extremamente difícil quantificar a maior parte do que foge às malhas da rede.

Como é que se chega a estes números se tudo a que este estudo se refere é sigiloso e escuro?

Mas se se sabe onde é que há fugas a sério, porque é que elas não são denunciadas ao Ministério Público? Isso é que seria serviço verdadeiramente público e patriótico.

Depois de tudo isto, assiste-me o direito de poder pensar, que esses números poderão pecar por defeito porque, eventualmente, podem acontecer por aí manobras que nem sonhamos. Os impostos, para quem os paga, são muito elevados e por isso tentadores a que se lhes fuja. Para isso, há por aí as chamadas engenharias financeiras, que estudam ao pormenor as melhores estratégias para que essas fugas possam acontecer com alguma naturalidade, para não darem nas vistas, mas obterem os resultados ambicionados. Portanto, se se fala em 45 Mil Milhões, porque não outro número bem superior?

Mas mesmo assim, admitindo que os números propalados possam ser mesmo reais, há que lhes juntar outros da chamada economia trapezoidal. Vejam-se os resultados dos buracos do BPN, do BPP, do BANIF e agora do BES. Isso não é economia paralela. É economia de trapézio. Quantos milhares de milhões? Só mais tarde, quando, e se, as contas forem apuradas. Mas serão largas dezenas de milhar de milhões e, para além disso, ainda temos aquelas empresas que eram portuguesas e foram saldadas, e outras nem por isso, mas que, utilizando ainda nomes portugueses, pagam os seus impostos na estranja porque são muito “patrioteiras”. Quanto é que foge assim já que os lucros são gerados cá pela rapaziada consumidora? Milhões, muitos milhões. E nós, os que por cá estamos, temos que aguentar com os desvarios destes novos meteorologistas que anunciam nuvens negras.

Mas o caso do BES, para além do buracão do BPN onde anda tudo à solta como se nada tivesse acontecido, reúne ali a mais fina flor do entulho que tem sabido, porque têm deixado, viver com todos os expedientes possíveis e inimagináveis. Até os mais altos responsáveis deste quintal, botaram faladura acerca do falecido BES e estava tudo bem. Vejam-se estas pérolas retiradas, com a devida vénia do Jornal “I” de 15.12.14, página 12, do artigo de Tomás Vasques – “Voando sobre um ninho de cucos”, subtítulo, “Nesta missa do sétimo dia, mereceu inusitado destaque, a semana passada, a audição circense a Ricardo Salgado”, referindo-se à morte súbita do BES nos primeiros dias de Agosto:

…”Como se lembram, dias antes, o senhor Presidente da República, nos confins do mundo, na Coreia do Sul, tranquilizou a família, os amigos e demais interessados. Com ar circunspecto, disse: “Os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo dado que as folgas de capital são mais que suficientes para cumprir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa”. Sublinho: Podem confiar, mesmo na situação mais adversa.”

Ainda do mesmo artigo passo a transcrever: “Também o senhor primeiro-ministro, na mesma altura, garantiu aos portugueses: “Não há nenhuma razão que aponte para que haja uma necessidade de intervenção do Estado num banco que tem capitais próprios sólidos, que apresenta uma margem confortável para fazer face a todas as contingências, mesmo que elas se revelem absolutamente adversas, o que não acontecerá com certeza.”

Depois aconteceu o que todos nós sabemos e o espectáculo vai continuando na Comissão de Inquérito da AR. Mas o certo é que os pequenos que se atreveram a ir ao aumento do capital do BES, ficaram sem o seu dinheirinho. Os muitos grandes, esses tiveram tempo e habilidade para venderem tudo antes da derrocada, os médios estão a meter acções no Tribunal e os outros grandes que não tiveram o privilégio de serem informados a tempo, esses estão a meter acções no Tribunal Europeu. Portanto, nem imaginamos onde é que isto irá parar. Entretanto, anda tudo a apanhar sol, como se nada tivesse acontecido e ninguém é responsabilizado, quanto mais acusado. Mas a Goldman Sachs, uma das grandes donas deste mundo globalizado, agora está a meter acções em Tribunal porque se sentiu prejudicada pala morte, não anunciada, do BES. Portanto o romance vai continuar e depois, como é costume, vai sobrar para os mesmos. Alguém tem dúvidas?

Quer isto dizer, que num país pequeno e pobre, onde o ordenado mínimo não chega aos 100 contos em dinheiro português, onde o desemprego cada vez sobe mais, apesar das operações de maquilhagem que lhe vão fazendo, onde a fome campeia apesar das centenas de novas sopas dos pobres que foram reactivadas e continuam em crescimento, e dos cabazes de natal que vão entregando nesta época, se não existissem essas grandes fugas aos impostos que todos os pequenos são obrigados a pagar com língua de palmo e outras trapalhadas que mal sonhamos, podíamos estar a viver de forma mais ou menos descansada, sem sobressaltos, sem pânico quanto ao futuro e acima de tudo confiantes nos reguladores e no sistema de justiça fiscal que procuraria essa gente como procura um desgraçado que se esqueceu de pagar 1€uro numa portagem virtual de uma scut qualquer, das muitas que por aí plantaram para nos extorquirem todos os tostões do bolso.

Portanto, se as fugas através da tal economia paralela, e dos outros estratagemas, são muito valiosas, as outras manobras trapezoidais nunca se sabe se não terão valores ainda superiores. Talvez. Admito que sim. E é por estas e por outras que isto chegou a este estado.

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