SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 16:36

Antes, depois e agora!

Antes, era um país autoritário próprio da longa ditadura, um país cinzento, com mais de 200.000 jovens em armas nas três guerras que iam consumindo vidas e desgastando a juventude. Por lá ficaram cerca de 10.000 que não voltaram. Mais vieram estropiados e muitos afectados pelo stress da guerra. O serviço militar era obrigatório e nunca menos de 3 anos bem medidos. Era assim.

O ensino obrigatório chegava à 4ª classe e parava. Havia Liceus nas cidades maiores para alguns. Depois começaram a aparecer Escolas Industrias para alimentarem as indústrias monopolistas, mas também não eram para todos. Também havia colégios bons, mas esses eram para quem podia pagar. As Universidades eram três e chegavam para quem lá podia entrar. Era assim.

A saúde, ou melhor a falta dela, era um problema grave. Hospitais existiam mas eram mais para compadres do que para quem precisava. As listas de espera eram de anos. A mortalidade infantil era um cancro em evolução permanente e sem fim à vista. Era assim.

A fome e a miséria enchiam cidades, vilas e aldeias. Segurança e garantia no trabalho eram puras ilusões. Havia o mando, o posso e o quero. O resto era conversa fiada. Quantos operários é que faziam uma semana completa? E depois, nas maiores empresas, as tais monopolistas, de vez em quando havia os “balões” e lá iam mais umas dezenas para a rua. Quando havia trabalho faziam-se 48 horas semanais – 6 dias a 8 horas. No comércio era parecido. No funcionalismo público e nalguns serviços é que já havia a chamada semana-inglesa cujo trabalho acabava ao Sábado antes do almoço. Era assim.

No campo era bem pior. Não havia garantias de nada. Nem de trabalho, quanto mais de remunerações certas. Era assim.

Dizia-se que havia uma primavera no ar. Mas só os nomes mudaram. O partido único mudou de União Nacional para Acção Nacional Popular como a Policia Politica – a PIDE – mudou para Direcção Geral de Segurança e a Comissão de Censura passou a ser chamada de Exame Prévio. Mas os “bufos” eram os mesmos e as prisões arbitrárias, por tudo e por nada, enchiam o Aljube, as Mónicas, Peniche, Caxias, etc. O medo estava instalado. Era assim.

Mas havia esperança que um dia tinha que acontecer o reviralho. Aliás, o Maio de 68 em França, a crise académica de 69, a emigração em massa, clandestinamente, para a França, tudo gerou sementes de esperança.

E o reviralho aconteceu numa manhã de uma 5ª feira, 25 de Abril de 1974, quando um grupo de oficiais pôs em marcha o MFA, que tinham criado à sombra e por causas das guerras de África, de que também já estavam fartos e onde não viam soluções. O regime ficou órfão desde o dia em que o Salazar caiu da cadeira. O regime estava podre e corroído por dentro e por isso até parece que foi fácil o seu derrube. Nesse dia, no Tejo, estava surta uma esquadra da NATO, que só zarpou para o Atlântico quando o MFA triunfou, envolvido por multidões populares que encheram ruas, avenidas, praças e largos. Foi assim.

Depois, depois foi o que se sabe. Acabou a ditadura, veio a democracia. Muitos, que tinham a consciência pesada, foram de “férias grandes” para Espanha, para o Brasil, etc. Foi criado o Salário Mínimo Nacional que não existia. Vieram as conquistas de melhores condições de trabalho e de remuneração. Foi instituído o Serviço Nacional de Saúde que em poucos anos se tornou exemplar. O acesso ao ensino médio e superior foi facilitado. A melhoria nas condições de habitabilidade foi importante. O direito a férias foi mais uma conquista. E acima de tudo as guerras acabaram e a descolonização foi feita dando novos países ao mundo.

Os partidos apareceram, a politica e os novos políticos foram-se instalando e tomaram conta disto tudo, mesmo antes dos militares regressarem aos quartéis. Muitos têm culpas no cartório pelos maus caminhos em que nos meteram, mas desculpam-se todos os dias esquecendo-se da forma como alguns desbarataram os milhões que todos os dias vinham da CEE, a que entretanto aderimos. Tudo a favor dos seus amigos de peito. Foram oportunidades que o País perdeu mas que alguns “ganharam” e que estão a ser pagas com muita fome, muito suor e muitas lágrimas, ao passo que os tais amigos, deles, enchem as listas dos mais ricos do mundo ao pé dos mais pobres do planeta. Nunca as diferenças entre ricos e pobres foram tão grandes. Nunca o desemprego foi tamanho. A miséria que se instalou faz lembrar os tempos de antigamente das caridadezinhas com as cantinas sociais, sucessoras da Sopa do Sidónio e das Sopas dos Pobres, a matarem a fome a muita gente.

Agora estamos num país austeritário, distante de Abril, sem esperança, em que as classes mais vulneráveis, os empregados por conta de outrem e especialmente os funcionários públicos e os reformados e pensionistas, para além, da multidão de desempregados, como se fossem parasitas da sociedade, estão a pagar a crise que outros criaram para se servirem. O Serviço Nacional de Saúde degrada-se todos os dias com encerramento de urgências e muitas valências, cortes de toda a ordem o que leva a que muitas vezes até medicamentos faltem em alguns hospitais. A educação está pelas ruas da amargura. Encerram-se escolas, concentram-se serviços, complica-se o acesso ao ensino, reduzem-se professores e outros agentes de ensino, como o “botas” fazia no seu tempo. A crise da habitação é mais que visível com cada vez mais sem abrigo a viverem na rua. O interior cada vez mais deserto. Fecharam linhas de caminho de ferro e depois criaram auto estradas por onde ninguém passa. Fecharam estações dos correios, extensões de saúde, tribunais e repartições de finanças estão na calha, acabaram com juntas de freguesia e o que é que o país ganhou com esta voragem toda se a divida aumenta todos os dias? Incentivaram a emigração que os jovens estão a aproveitar como única oportunidade de mostrarem o que valem e o que sabem. Por tudo isto cada vez se nasce menos e cada vez se morre mais neste País.

Tirando o facto, importante, é certo, de ainda podermos dizer que vivemos em democracia, pelo menos de nome, o certo é que os tempos de hoje começam a ser muito parecidos com os tempos de antigamente. O ambiente é cinzento, as caras fechadas, as injustiças a fazerem doer no corpo e no espírito. No ar, sonha-se que isto tem que mudar de novo. Haja esperança.

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