SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 07:17

O Livro de Reclamações

Li com todo o interesse o artigo “Espera muito longa nas urgências do Hospital de Torres Novas indigna pacientes”, publicado a semana passada neste jornal. Mas fiquei perplexo com as respostas que o senhor Presidente do CHMT deu ao jornalista quando, escusando-se a sofrer pressões dos jornais, entende que os utentes que se sentirem prejudicados devem usar o livro de reclamações, prometendo uma averiguação “até às últimas consequências” dos factos que dali se apurassem. Aquelas palavras, basicamente, parecem indiciar procura de culpados quando se sabe que a culpa deriva da escassez de técnicos ao serviço dos utentes que sentem necessidade de se dirigirem ao serviço de urgência. Aliás, só quem não passa por esses serviços, especialmente nos últimos tempos, é que não imagina os dramas que ali são sofridos, ou então, quem esteja em certos lugares de topo cujos casos lhe passam sempre ao lado. Para nosso mal, o problema não é só em Torres Novas porque em Abrantes a confusão e a espera não são menores.

Face à conversa sobre o Livro de Reclamações, procurando conhecimentos do melhor do funcionamento do tal livro dum hospital, diz-nos o site da DECO PROTESTO, caso sinta necessidade de reclamar:

“Recorra ao gabinete do utente para apresentar sugestões ou reclamações sobre o Serviço Nacional de Saúde. Cada distrito tem um gabinete do utente, na sede da sub-região de saúde, nos centros de saúde e nos hospitais. O gabinete tem como funções:

•          informar os utentes sobre os seus direitos e deveres relativos aos serviços de saúde;

•          receber as reclamações e sugestões sobre o funcionamento dos serviços ou o comportamento dos profissionais;

•          redigir as reclamações orais sobre os serviços e profissionais, quando os utentes não o possam fazer.

Para apresentar uma reclamação, pode ainda utilizar o Livro de Reclamações que é obrigatório em todos os locais onde há atendimento público. A sua existência deve ser divulgada aos utentes de forma visível. O reclamante será sempre informado da decisão sobre a reclamação.”

É bonita esta ajuda. Será que eles imaginam ou sabem que o tal gabinete do Utente tem horário limitado ao passo que os serviços de urgência hospitalares funcionam 24 horas por dia? Então e nas horas, fora de horas, onde é que se vai reclamar? No outro dia? Pois. Mas no outro dia, muitas vezes já é tarde e para além do mais não nos podemos esquecer que estamos a falar de pessoas em situação fragilizada, que só precisavam que os serviços funcionassem como funcionavam ainda há pouco.

Sabemos que há picos por vezes, mas num Hospital com um médico de serviço e dois ou três técnicos de enfermagem, como é que os serviços normais podem andar? Portanto, esse encaminhamento do Presidente do CHMT para o Livro de Reclamações não é mais que deixar passar o tempo, que é uma das formas das situações se resolverem com o tempo, sem se tomarem decisões no sentido dos serviços serem dotados do pessoal suficiente para o seu bom funcionamento. É o economicismo no seu melhor, mesmo que digam o contrário.

E assim vamos caminhando, não se sabe bem para onde. Mas infelizmente não é só a saúde que está a ser atacada. Também o ensino público está pelo mesmo caminho e tudo leva a crer que, se não houver uma mudança radical, estes serviços essenciais caminham para a privatização a cujos novos donos o Estado não deixará de pagar rendas principescas para os serviços cedidos e que eles também cobrarão aos seus fregueses. Já foram os Correios, como foi a ANA, a EDP, a REN, a seguir irá a TAP, a CP CARGA, a Linha de Cascais, as Águas de Portugal e o que eles mais se lembrarem porque o privado é que é bom desde que lhes dêem as coisas e o dinheiro a acompanhar. São assim os negócios garantidos. Será caso para perguntar, nestas circunstâncias, para que é que servirão todos os livros de reclamações?

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