SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 03:48

Tenham paciência…

Com uma dificuldade imensa, alinhavo estas palavras já nas primeiras horas do dia de Portugal.

E essa dificuldade é ainda maior quando se sente que este país, com mais de oito séculos de história, está a ser levado, teimosamente – custe o que custar – a empobrecer todos os dias.

Desempregados, feitas bem as contas, já serão mais de um milhão. Algumas centenas de milhar já não recebem qualquer tipo de apoio e muitos desses desempregados, com tendência a aumentarem já que a economia cada vez está mais paralisada e os governantes ameaçam todos os dias mandarem para o desemprego várias dezenas de milhar de funcionários públicos, já não têm esperança de virem a encontrar o emprego que lhes falta.

Reformados são perto de três milhões de pessoas, das quais há cerca de um milhão com pensões inferiores a 300 euros por mês. E o estado, com uma insensibilidade estonteante ainda ameaça cortar substancialmente parte das pensões a todas essas pessoas, que depois de uma vida inteira de trabalho, têm que comer, comprar medicamentos, pagar a água e a luz, ter algum dinheiro para irem ao médico, para se vestirem e calçarem e pagar a renda da casa que também este ano sofreu aumentos nunca antes vistos e muitos deles até obrigados, pela força das circunstâncias, a ajudar os seus familiares directos que estão no desemprego.

Talvez por isso, veio-me à memória um pedaço de um discurso de Sofia de Mello Breyner quando em 1969 participou na campanha da CEUD – Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, contra o partido único, e que a determinada altura disse: “Aos pobres de Portugal é costume dizer: “Tenham paciência”. Mas na verdade devemos dizer: “Não tenham paciência”. Devemos pedir ao povo português que procure o caminho de uma “impaciência pacífica”, que se exprima e combata sem violência mas com teimosia e firmeza.”

Veja-se o sentido destas palavras tão actuais como quando foram ditas. O poder parece que está completamente surdo e cego. Até muitos dos seus apoiantes, alguns de certa nomeada e que já representaram, e alguns ainda representam, os partidos da coligação em inúmeros cargos oficiais, como sejam Marques Mendes, Marcelo Rebelo de Sousa, Bagão Félix, Miguel Frasquilho, Lobo Xavier, Manuela Ferreira Leite, António Capucho, Adriano Moreira, cada um à sua maneira, vão mostrando a sua discordância pelas políticas seguidas.

Paulo Morais que até foi Vice-presidente da Câmara do Porto pelo maior partido deste governo, esse não se cansa de denunciar diariamente casos de corrupção, de compadrio, de incompetência e de todo o tipo de irregularidades sem que seja chamado a ser ouvido pelos tribunais.

Pacheco Pereira, ainda militante do partido ainda maioritário, é um crítico acérrimo à política autista instalada, e nada acontece.

Sampaio da Nóvoa, distinto Reitor da Universidade de Lisboa, por várias vezes, de forma eloquente, mas perfeitamente clara, tem vindo a colocar o dedo nas feridas, mas também não é ouvido.

Henrique Neto, empresário de sucesso, tem-se fartado de questionar os governos, mas também de apresentar exemplos concretos que podiam mudar o rumo deste país, mas é ignorado.

Podia passar o dia de Portugal a relatar casos concretos, mas não vale a pena. Toda a gente conhece e sente na pele o que se está a passar. Só o governo é que parece estar noutro planeta.

Assim, não vamos lá.

Termino com um extraordinário apontamento de Miguel Torga, escrito em 1993, dois anos antes da sua morte e que até parece ter sido escrito, ontem mesmo: “Ninguém me encomendou o sermão, mas precisava de desabafar publicamente. Não posso mais com tanta lição de economia, tanta megalomania, tão curta visão do que fomos, podemos e devemos ser ainda, e tanta subserviência às mãos de uma Europa sem valores”.

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