SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 09:18

A Imortalidade

Ao longo dos séculos parece que não houve nenhuma civilização que não sonhasse com a imortalidade. A nós, humanos parece-nos sem sentido esta nossa existência sem esse fim maravilhoso que é a imortalidade. O filósofo francês Jean Paul Sartre dizia que “o homem é uma paixão inútil”. De facto, mesmo quando diante dos nossos olhos a morte é o fim de tudo, sempre, no nosso íntimo, lutamos com esta ideia de que nem tudo terminou. Uma das afirmações do Cristianismo primitivo, que atraiu mais crentes, foi a ideia da imortalidade. Paulo lá explicou da melhor maneira essa crença mas pela prática dos crentes muitos deles continuavam a viver como se esta vida fosse a definitiva. Quantas queixas dos Padres da Igreja sobre o comportamento de muitos cristãos que viviam como se esta vida fosse tudo. Para lá da morte só existiam sombras e mistérios. O povo afirma que nunca ninguém veio do outro lado dizer-nos o que lá se passava. Nem o rico de cuja mesa caíam as migalhas de que o pobre Lázaro não podia alimentar-se, conseguiu que do outro mundo viesse alguém prevenir os seus irmãos para cumprirem as leis de Deus. Não havia comunicação entre este e o outro mundo. De facto todos nós, que experimentamos a dor da perda de um ente querido, sabemos o quanto sofrimento essa perda nos provoca. De facto a crença na ressurreição é a pedra basilar do Cristianismo. Sem ela a nossa fé é vã. Ao procurarmos compreender esta crença, não atinamos nem como nem o porquê e tudo nos parece um mistério. Vamo-nos entretendo com o culto dos mortos e, nestes dias de finados, os cemitérios enchem-se de flores que mãos piedosas colocam nos túmulos dos seus entes queridos. Quantas vezes, diante de um cadáver de quem em vida fomos muito amigos, nos vêm à ideia os milagres de Cristo e da ressurreição de Lázaro! Também nos apetecia dizer: “Levanta-te e anda”. Em todos os funerais, este pensamento me provoca e me incita a pensar no mistério da vida. Nem dois mil anos de Cristianismo conseguiram modificar o nosso comportamento perante a morte. Será uma consolação muito ténue porque o nosso dia a dia nos diz que tudo acaba com a morte. Aqueles que nós amamos conti- nuam a viver nos nossos corações e até desaparecer a sua lembrança eles continuam vivos. Depois tudo se esfuma no mistério e no rolar dos séculos. É que se nós acreditássemos verdadeiramente na ressurreição dos mortos, os nossos comportamentos seriam totalmente diferentes. Porém, continuemos a dar vida àqueles que amámos e que já partiram, com um altar, embora pequenino nos nossos corações.

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