SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:53

Os segredos inconvenientes

Todos os que se interessam por cultura já leram com certeza que o Vaticano tem uma das bibliotecas maiores do mundo. Esta grandeza não se refere só ao sumptuoso edifício, mas ao acerbo dos mais importantes documentos do mundo, sobretudo do nosso mundo ocidental. Sei que o Arcebispo Tolentino Mendonça, até há pouco tempo Vice-Reitor da Universidade Católica, foi nomeado pelo Papa Francisco diretor dos arquivos do Vaticano e portanto da biblioteca. Hoje em dia, depois de séculos de restrições, já se podem consultar vários documentos importantes contidos aí. O bispo Carlos Azevedo tem acesso fácil à biblioteca vaticana onde investiga várias figuras religiosas portuguesas. Pois é precisamente a respeito de uma entrevista que li no jornal público, feita a D.Carlos Azevedo que gostaria de tecer algumas considerações dado que, sem qualquer explicação, desdiz tudo aquilo que ao longo dos meus anos de estuado aprendi sobre a Inquisição e sobre os Bárbaros. Vou transcrever as duas das afirmações que, mesmo soltas não perdem o seu significado. Assim sobre a Inquisição diz: “alguns pensam que as pessoas eram queimadas na praça, mas nunca eram. Eram entregues ao braço secular e eram queimadas depois de forma discreta”. Se assim era como justifica que as multidões que acorriam aos autos de fé, fossem para ver exatamente a fogueira a arder queimando os condenados? Mais ainda, o Grão-Mestre dos Templários foi queimado com o seu colega no adro de Notre Dame de Paris e no final, diante de tal injustiça o povo de Paris procurou levar as cinzas como relíquias. Talvez fosse de boa pedagogia que os investigadores (e cuido que o senhor bispo o é) prestassem um serviço às centenas de alunos que nas nossas escolas aprendem que quem era condenado pela Inquisição à fogueira, era realmente queimado em frente da assistência. Sobre as Invasões bárbaras afirma o seguinte na mesma entrevista”. Tal como já não falamos de “invasões bárbaras”, mas da chegada de povos que vinham integrar-se, eram imigração”. Também esta afirmação é feita como se se tratasse de um dado adquirido sem qualquer explicação. Diante da minha perplexidade e de tudo aquilo que aprendemos não só na escola mas em muitas leituras que as invasões bárbaras destruíram o Império Romano do Ocidente causando mortandades, roubos, violações, deixando atrás de si um rasto de horrores e de mortes. Seriam invasões pacíficas? E tal foi a destruição que a civilização do Ocidente recuou mil anos. E não causou mais danos porque já estavam constituídas muitas dioceses cujos bispos tentaram salvar a civilização romana. Como pode conjugar-se isto com uma migração pacífica? A maior parte dos leitores ou não leu tal entrevista ou a entrevista pouco ou nada lhes diz. A mim, em virtude da minha formação, acho que afirmações deste género, mesmo numa entrevista e ditas por quem foram, necessitavam duma explicação.

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