SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 00:51

Portugal e os seus filhos

Habito nesta pequena casa lusitana e tenho a bonita idade de 800 anos quase a fazer 900.Quando ainda tinha 400, senti que esta casa era pequena e fui pelo mundo fora para tentar encontrar uma casa maior.

Nessas andanças “por mares nunca dantes navegados” gerei vários filhos. Ao mais velho chamei-lhe Brasil. Como foi possível fazer uma tão grande casa, eu que era tão pequeno e tão limitado! Casa imensa, linda, perturbadora que construi para esse filho. E pelos anos fora, sempre que eu precisava dele logo lhe caía nos braços e nunca desprezou o seu velho pai. O mesmo sucedia com ele sempre que a vida lhe corria mal. Foi o primeiro a emancipar-se e a ser cobiçado por grandes damas. A primeira chamava-se sua alteza o Império mas logo se divorciou e casou com a República até hoje apesar de todas as infidelidades de parte a parte. Sempre foi um casamento tempestuoso. Quando as coisas corriam mal lá vinha ele ter com o seu velho pai.

Depois dele gerei Goa na tão cobiçada Índia. Esta filha permaneceu solteira durante 500 anos. Era uma joia exótica entre os seus irmãos. Sempre nos demos bem até que ela se casou com o seu vizinho, quase irmão, dono de uma casa imensa com milhentos recursos. Assim perdi mais um filho que finalmente teve a sua liberdade. Entretanto gerei mais três filhos no Atlântico: Cabo Verde, Guiné, S.Tomé e Príncipe. Estes estavam mais perto do velho pai e ficaram muito tempo ligados ao pátrio lar. Permaneceram solteiros muitos anos.

Em seguida gerei mais dois filhos Angola e Moçambique. Estes também tinham uma casa imensa que se foi alargando ao longo do tempo, permanecendo solteiros. Mas nas minhas andanças também gerei um pequenito chinês: Macau. A mãe era a grande China que sempre o protegeu porque ele, apesar de pequeno, foi-lhe imensamente útil.

Finalmente, o mais novo de todos: Timor-Leste. Este é o benjamim e custou-me sangue e lágrimas porque um seu vizinho poderoso lhe queria roubar a pequena casa que lhe pertencia. Embora cá de longe consegui libertá-lo. Todos eles se emanciparam e alguns não se dão muito bem com o velho pai a não ser quando precisam dele.

Durante quarenta anos encerraram-me num lar onde não tinha liberdade, onde me espezinharam e fizeram de mim o que quiseram. Finalmente numa manhã de Abril enchi-me de coragem e gritei bem alto: “Fascismo nunca mais”. Com esse meu grito contribui também para a emancipação de todos os meus filhos espalhados pelo mundo que eu descobri sempre à procura de engrandecer a minha “pequena casa lusitana”. Fiquei viúvo muito tempo, mas agora, para felicidade minha, todo remoçado, não parecendo ter a idade que tenho, casaram-me com a Democracia. Não é uma mulher fácil e é muito exigente. Não pareço o mesmo Portugal. Só espero que os meus filhos não me ponham outra vez num lar retrógrado onde seja maltratado. Minha mulher é profundamente liberal e inteligente embora, por vezes se deixe enganar nas despesas da casa.

Ficaram comigo dois filhos muito amados: uma filha, a Madeira e um filho os Açores. Também eles fazem a sua vida independente mas sempre ligados ao velho pai que se orgulha de tais filhos.

É assim que eu vejo Portugal.

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