SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 01:41

Os Pedabobos

Perdoe-me o professor Dr. Santana Castilho se lhe copio o neologismo retirado da sua crónica no jornal “Público” de 22/02/2017 a propósito da apresentação para apreciação pública dum documento do senhor Secretário de Estado João Costa intitulado “Perfil dos Alunos à saída da Escolaridade obrigatória”.

Há muito tempo que não lia tão sábia crítica a um documento emanado do Ministério da Educação.

De facto, “in illo tempore” recebíamos nas escolas textos e mais textos em “eduquês” que pomposamente revestidos de augustíssima sabedoria, nada queriam dizer. Muitas das frases desses textos, que quase ninguém lia, não tinham sentido. Ainda guarda um ou dois cadernos desse tempo (anos oitenta) nos quais me dei ao trabalho de sublinhar as tais frases que inchadas como balões se desfaziam em ar e vento.

Ora a crónica que agora li no jornal “Público” do professor Dr. Santana Castilho veio relembrar-me que raramente saem do Ministério da Educação documentos inteligentes com conteúdo. E parece que a pecha continua. Não sei dizer melhor que o citado professor. Repare-se nestas afirmações a respeito do tal documento:” Se por parte dos professores se verificar uma adesão acrítica à sua (do documento) modernidade bacoca e ao seu piroso homem novo, não exulte. Preocupe-se. Significará isso que a classe atingiu o auge da desistência. Ou da resignação. Escolha a palavra”.

Os professores já estão fartos das diretivas do Ministério que só servem para lhes roubar tempo que tão necessário lhes era para bem prepararem as aulas.

O professor Dr. Santana Castilho sintetiza maravilhosamente bem afirmações do senhor Secretário de Estado ao comentar: “ Um Secretário de Estado não pode abrir a boca e dizer o que os pés pensam”.

No tal documento que está para consulta pública o senhor Secretário de Estado pergunta:” Será mesmo compatível como o desenvolvimento científico-tecnológico dos últimos anos termos uma Europa com refugiados a morrer às nossas portas ou uma população estudantil no seio da qual observamos um aumento da violência no namoro?”

Eis o comentário do professor Dr.Santana Castilho: “Que tem isso a ver com o pomposo Perfil do Aluno para o século XXI? Crê que a partir dele cada adolescente português vai partilhar haveres com dois sírios e um iraquiano e enviar rosas diárias à namorada?”

Pelos vistos as ideias que expende no tal documento, resultado de “um comité de notáveis que demorou seis meses para parir um papel que, expeditamente, um par de horas de “copy-past”, bem dirigido faria.”

Seguidamente, dirigindo-se ao Secretário de Estado, remata:” Ainda o senhor era imberbe e já os professores mais velhos tinham passado por múltiplos programas e conteúdos. Objetivos gerais e específicos, unidades didácticas, pedagógicas ou lectivas, conforme a moda, pedagogia por objectivos e objectivos sem pedagogia, ensino centrado no aluno nas semanas pares e nos professores nas semanas ímpares”. Depois põe o dedo na ferida:”Já lá vão 18 anos, (os professores) assistiram a estratégias cirúrgicas de remoção de obstáculos para que a rapaziada passasse toda.”

Como eu me lembro bem disso! E conclui com afirmações certeiras de quem, pela posição, pela sabedoria e pela prática docente desanca nos novos génios ministeriais que julgam descobrir a pólvora. Ei-las:” Depois disso tudo, (os professores) estão treinados para aguentar as espertezas e os ziguezagues da geringonça educativa e agora, os seus perfis de competências. Genericamente, até me parece que se têm deixado embalar pelo seu discurso redondinho. Mas olhe que estão “congelados” em salários e carreiras, há uma década e as suas pós-modernices não derrogam o aforismo popular: honrarias sem comedorias são gaita que não assobia”.

Pela minha experiência e dedicação ao ensino durante 40 anos, só tenho que dar os parabéns ao professor Dr. Santana Castilho.

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