SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 11:32

O desânimo

A nossa Europa e o nosso país criaram, em certas épocas, esperanças de progresso e de felicidade que, por diversas razões, estão a eclipsar-se.

Neste momento e com conhecimento de causa, vou-me referir a duas classes profissionais das mais atingidas não só pela crise económica mas sobretudo pela crise de valores.

Aos médicos cuja profissão, ainda hoje, é, entre nós, a aspiração máxima de muitos jovens, tem sofrido na pele as consequências da pobreza e da desumanidade que atingem os mais débeis. Concretamente refiro-me ao Serviço Nacional de Saúde, uma das realizações maiores da nossa revolução. Nele continuam verdadeiros génios e dedicados profissionais. Quem, como eu, passou três meses nos corredores do Hospital de Santa Maria preocupado com a doença dum familiar, pode testemunhar o trabalho e a dedicação dos profissionais de saúde. Sempre a correrem dum lado para o outro, dando-nos, por vezes, a impressão de super-homens e super-mulheres. As suas condições de trabalho (e aqui refiro-me a médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar) nem sequer eram sofríveis, eram más. Já nem me refiro às Urgências porque, algumas vezes, mais pareciam o “Inferno de Dante”. Confesso que só nessa altura eu calei muitas críticas que dirigia a esses profissionais. Não se pode fazer boa medicina sem condições. Esquecemo-nos que estes profissionais são seres humanos como nós.

Por isso mesmo não me admiro do título de um artigo publicado num jornal de 13/1/17; “Mais de 75% dos médicos admitem trocar o S.N.S. pelo sector privado”. Porquê será? Não acredito que seja só por uma questão de dinheiro!

Os professores são outra classe de que pouco se fala na Comunicação Social e que sofrem a maior crise desde que me reformei há dez anos.

Aqui ainda não vi estatísticas, mas todos os dias contacto com ex-colegas que ainda trabalham. Mas, com ou sem estatísticas, oiço lamentações: “ Se tivesse outra profissão que me desse possibilidade de viver, abandonava imediatamente o ensino. E aqui as mesmas razões: as condições de trabalho são, por vezes, também desumanas. Que alegria pode ter um professor quando entra na escola às oito da menhã e sai, por vezes às oito da noite? Como podem exigir que um professor possa ser comparado com qualquer outro trabalhador? Preencher papéis e grelhas que depois vão para o lixo? Como os médicos, a atividade docente é uma profissão específica e exigente. Obrigá-los a estarem, na escola 35 horas por semana é desconhecer essa especificidade, sobretudo (sublinho) no Ensino Básico.

Senhor Ministro da Educação, mande fazer um inquérito aos professores por uma empresa independente. Tenho a certeza que não acreditará nos resultados. Por favor não se contente com as respostas dos senhores diretores e doutros profissionais instalados nas suas mordomias.

Quantos professores vão ao psiquiatra, quantos engolem, todos os dias, calmantes ou como se diz “ansiolíticos”?

Falei só destas duas profissões mas podia incluir também os jornalistas ou as forças da ordem. Apelo a quem de direito que não deixem o desânimo atingir a revolta porque, nesse caso, todos os portugueses sofrerão ainda mais.

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