SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 09:55

O Cardeal

Neste tempo de Natal em que o consumismo exacerbado por campanhas a favor dos mais necessitados campeia, sentimos a falta que faz a consciência da dimensão verdadeiramente humana do mesmo Natal.

O mundo cristão nunca conseguirá envolver-se no significado desta quadra porque nunca o conseguiu.

Homens como Francisco de Assis tentaram despertar consciências, exigindo que o Evangelho fosse a lei fundamental dos cristãos. Algo conseguiu mas depressa o seu testemunho desapareceu porque os cristãos, a cristandade se contentaram com demonstrações teatrais sem conteúdo real pois os deserdados da sorte continuaram deserdados e os pobres continuaram mais pobres e os grandes cada vez maiores. O Romano, tornado cristão, poderia tratar os seus escravos como seus familiares mas nunca acabou com a escravatura. Esta só acabou no século XIX. Que cristianismo era o deles?

Ao pretender atualizar o Natal, tornando-o fermento de mudança das consciências, lembro-me de um homem, louvado, admirado, contestado e, por vezes, odiado, que esse sim procurou que a mensagem do Presépio fosse realidade na sua diocese e no seu país. Refiro-me ao Cardeal Cerejeira. Chegado aqui, os que me lerem talvez se sobressaltem porque o relacionam logo com Salazar. Contudo desconhecem os caminhos estreitos, as dificuldades que esse homem, o Cardeal Cerejeira teve que percorrer e resolver para que a mensagem de Jesus convertesse as consciências. Esqueçam as calúnias, os disparates, as confusões que ligaram esse homem ao regime anterior.

Eu só falo do homem da Igreja que eu conheci, que me deu a sua amizade, que me confiou segredos que eu só confiarei a amigos muito íntimos.

Muitos dos seus padres, ainda vivos, talvez me possam contradizer e muitos cristãos do seu tempo achem que a amizade pode esconder muitos defeitos. Pode, em parte, ser verdade. Contudo afirmo bem alto a preocupação dele pelos seus padres. Lembro um simples episódio significativo dessa mesma preocupação.

Soube, o Cardeal Cerejeira, que um dos seus padres, pároco numa das freguesias bem próximas daqui, passava dificuldades económicas e hesitações na sua fé. Então pediu ao secretário que o conduzisse até à dita freguesia. Quando o carro parou à porta da residência paroquial, saiu o secretário e bateu à porta. Qual não foi o seu espanto ao verificar que o pároco estava em cima do telhado da residência, tentando consertar o mesmo telhado. O Cardeal Cerejeira saiu do carro e o pároco desceu do telhado. Quando se abeirou do Cardeal para lhe beijar o anel, como era costume, o Cardeal abraçou-o e assim se dirigiram para a residência paroquial.

Isto é uma pequena demonstração da grandeza de um Cardeal com quem tive o privilégio de me corresponder enquanto vivi em Paris. Quantas vezes ele me escreveu:” desculpa de não responder logo à tua carta mas estou assoberbado de trabalho”.

Não gosto de endeusar seja quem for nem de pensar que todos são perfeitos mas não gostaria de contribuir para que a memória do homem tão importante na sua época fosse denegrida por suposições, por calúnias sem fundamento só porque esteve ligado a um ditador.

Eu, por acaso, soube que durante a guerra colonial as relações entre os dois (Cardeal e Salazar) foram, muitas vezes, tempestuosas.

Os nossos julgamentos só têm em conta o que se diz, a propaganda mentirosa, o boato ou a calúnia. Desconhecemos o íntimo dos homens, as suas dúvidas, os seus sofrimentos que os levam a não ter coragem para denunciarem os crimes, os erros e as más decisões dos governantes. Cuido que é esse o senão do Cardeal Cerejeira.

Este testemunho será a prenda de Natal que lhe ofereço, supondo que a sua fé o tenha recompensado do seu sofrimento íntimo, das suas dúvidas e das suas hesitações.

Só conservo em mim a mágoa de que os seus fâmulos me impedissem de o visitar no seu retiro da Buraca para lhe agradecer a sua amizade e confiança.

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