SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 23:01

A Bíblia

Num país onde a cultura se limita, a maior parte das vezes, às revistas cor de rosas ou aos jornais sensacionalistas, um acontecimento como a tradução do Professor Frederico Lourenço da Bíblia a partir dos originais gregos, embora noticiada nos jornais e na televisão, passa quase despercebida quando não ignorada.

Mesmo aqueles que, por obrigação da sua fé, deviam interessar-se por este notável acontecimento, ignoram-no ou criticam-no porque a sua Igreja nada disse e devia dizer, quer louvando quer criticando.

Evidente que os jornalistas, ao darem a notícia, como costumem, nada investiguem e ignorem que a primeira pessoa que em Portugal traduziu os Evangelhos dos originais gregos foi o Cónego José Falcão. Eu próprio testemunhei o seu labor ao visitá-lo na sua casa onde se dedicava a esse trabalho. Projetava “slides” dos originais e ia, laboriosamente traduzindo. Demorou algum tempo pois trabalhos destes não se fazem num dia.

Voltando à tradução de Frederico Lourenço, descobri que afinal o grego, em que estão escritos os originais dos quatro Evangelhos, não é um grego popular, normalmente chamado “koiné” mas é um grego normal, a mesma língua que utilizaram Aristóteles ou Platão, embora menos elaborada. Para provar isso frederico Lourenço em rodapé compara os termos utilizados pelos evangelistas com o grego dos clássicos e as palavras são exatamente as mesmas.

E é muito curioso como o professor, ao apreciar o grego dos Evangelhos, tenha afirmações como esta: “Apesar de escrito num grego de estilo simples (dir-se-ia mesmo popular), o Evangelho segundo Marcos é um texto dotado de intenso encanto literário…. A redação é tersa, o ritmo é veloz e as frases estão carregadas de dramatismo.” Portanto, além de serem as raízes da fé cristã, os Evangelhos também são uma obra literária universal que deve ser apreciada pelos crentes.

Infelizmente a grande maioria dos nossos crentes só conhecem os Evangelhos pelas leituras das missas dominicais. Também não têm curiosidade para lerem em suas casas e agora com maioria de razão esta tradução magnífica que nada invalida aquilo que a Igreja proclama. O professor não é nenhum herege mas, pelo contrário, alguém que enaltece os Evangelhos traduzindo a sua língua original tal como foram lidos pelos primeiros cristãos. Mais uma obre de cultura universal à nossa disposição, ficando nós à espera dos outros volumes.

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