SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 16:16

A mania da inferioridade

Nós, Portugueses ainda temos a mania que o estrangeiro é que é bom. Nas mais diversas situações, entre um produto português e um estrangeiro, inclinamo-nos sempre para o estrangeiro. Faz-me lembrar aquela situação de um senhor português com um fato moderno e cujos amigos admiravam o corte e a fazenda porque, além do mais, tinha sido comprado em Londres. Um dos amigos, ao examinar o interior da lapela do casaco, leu: fabricado na Covilhã-Portugal. Não me perguntem se foi ou não verdade mas que caracteriza bem esta nossa mania de julgarmos sempre melhor o que vem do estrangeiro, não há dúvida! Nós somos piores e vivemos pior do que os que vivem no estrangeiro?

Para ilustrar o que afirmo, conto um pequeno episódio passado comigo em Paris durante os quatro anos que lá vivi. Os nossos vizinhos do primeiro andar esquerdo eram um casal de jovens franceses com quem estabelecemos uma certa amizade, chegando mesmo, a minha mulher a convidar a rapariga a almoçar com ela, quando se dava conta que ela não tinha que comer. Também o rapaz que vivia com ela falava muitas vezes comigo e, sabendo que eu era professor me pediu, em determinada altura se eu lhe preenchia os papéis para ele concorrer para os Correios.

Isto era a França dos nossos emigrantes que, quando cá chegavam só mostravam grandezas, ficando os que cá viviam com a ideia que lá é que era bom.

Ora num dia de Maio, recebo no meu trabalho um telefonema de minha mulher, muito aflita porque nos tinham assaltado a casa. Deixei tudo e vim para casa. Tinham estroncado a porta e basculharam a casa toda. Só demos pela falta de um pequeno cofre e dum saco. O cofre tinha umas joias e moedas romanas. Veio a polícia que conduziu a minha mulher às diferentes prisões para ver se reconhecia o nosso vizinho, único suspeito. A vizinha da frente, muito nossa amiga, tinha-o visto sair do prédio com o saco que ela reconheceu ser nosso pois o usávamos frequentemente. Nada se apurou. Faltavam dois dias para nos virmos embora, quando minha mulher, ao abrir a caixa do correio se deparou com um bilhete da rapariga que morava ao nosso lado a denunciar o marido e a pedir perdão. Reconhecia que tínhamos sido para eles como família e que o pago fora aquele. De facto depois do assalto o casalinho desapareceu dali e nem o senhorio sabia o seu paradeiro. Se calhar, nessa altura isto seria mais raro em Portugal.

Mas lembro que vi várias vezes debaixo das pontes do Sena, sobretudo de noite, uma pequena multidão de miseráveis que ali se acolhiam por causa do frio, esfarrapados e alcoolizados. Mas era a França que tanto valeu aos nossos emigrantes. Essas misérias não mostravam eles na televisão. Mostravam sim a miséria de Champigny. Portanto não nos iludamos, cá como lá há coisas iguais ou piores. Valorizemos aquilo que temos e não nos envergonhemos.

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