SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 00:04

Professores com medo

Nunca pensei que, depois de 42 anos como professor, tivesse de ouvir da boca de muitos dos meus colegas, que ainda estão a exercer, duas afirmações calamitosas: a primeira que, se neste momento, tivessem outra profissão, fosse ela qual fosse, deixaria imediatamente a escola; a segunda, que me deixou ainda mais espantado, a de que muitos professores vivem com medo e por isso se cala diante das humilhações a que a classe tem sido submetida.

De repente parece que recuei 46 ou 47 anos. Mas nesses anos só podíamos ter medo da polícia política e dos “bufos”. De que terão medo os professores? Dos que ocupam as cadeiras do ministério e de muitos daqueles que dirigem as escolas? Dos próprios colegas que são capazes de serem inimigos dos outros colegas só por um prato de lentilhas?

Durante os meus longos anos de docência nunca tive medo nem duns nem doutros porque nos apoiávamos uns aos outros mesmo nos casos em que alguns colegas foram presos e saíram do ensino por motivos políticos. Bem sabemos o que se passava nesse tempo de ditadura. Agora, depois do 25 de Abril, que motivos levam tantos professores a calarem-se ou a falar com medo ou a não terem coragem de enfrentar alguns diretores prepotentes, desumanos e incompetentes? Então o tal ministério não se chama Ministério da Educação? Se quando muitos dos que estão à frente das escolas não respeitam os colegas, quando por tudo e por nada lhes levantam processos kafekianos, os humilham ou os obrigam a fazer trabalho de secretaria sem cuidarem que eles têm família e filhos? Que gente é esta? Depois querem que os alunos respeitem os seus professores, que sejam bem comportados, que estudem.

Como antigo professor só me posso indignar diante de todos os atropelos de que tem sido vítima a classe docente e acreditem que eu falo com conhecimento de causa. Embora aposentado e porque sempre gostei da minha escola e dos meus alunos, sendo amigo dos meus colegas ajudando-os quanto podia, não me conformo com tanto mal-estar nas nossas escolas.

Só queria poder ir de escola em escola e gritar bem alto: caros colegas, unam-se e revoltem-se diante de tanta vergonha, diante de tanta injustiça. Senhores do Ministério venham às escolas, verifiquem com os vossos próprios olhos aquilo que talvez nem pensem que existe, sobretudo a nível do primeiro ciclo. Não deixem a política transformar alguns responsáveis em carrascos dos seus colegas. Eles são os educadores dos vossos filhos e, quantas vezes esses professores com medo têm que ser pais, educadores, psicólogos, psiquiatras e até, com mágoa o digo, empregados de secretaria. Invistam no primeiro ciclo onde encontro as maiores injustiças.

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