SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 07:57

ADEUS PORTUGAL QUE VOU P´RA LISBOA

Ouvi muitas vezes esta frase na boca das gentes do norte, sobretudo a norte do rio Douro. Cuido ser uma maneira bem disposta de dizer que Lisboa era outro mundo que tinha muito pouco a ver com o resto do país. De facto as gentes que vinham para Lisboa, para fugirem à vida do campo, julgavam até que isso era uma promoção social.

Procurando refletir um pouco sobre isto, verificamos que, ainda hoje muita gente diz: “Lisboa é Portugal, o resto é paisagem”. As duas afirmações completam-se embora em sentidos opostos. Uma quer vincar a ideia que Lisboa nada tem a ver com o Portugal que só é visitado na altura das eleições e, no resto do tempo, é esquecido pelos senhores do governo que está em Lisboa. A outra vinca bem a ideia que Portugal é só Lisboa porque aí está a civilização, aí estão os senhores engravatados que olham para o resto do país como uma grande quinta onde trabalham no duro os “parolos”.

Esta última afirmação ouço-a muitas vezes da boca de gente da província, quando o governo não quer saber do resto do país.

Ainda hoje, se estivermos atentos, Lisboa tem um poder de atração muito grande porque parece que a civilização e o desenvolvimento só lá é que existem.

Há ainda uma terceira frase proferida também pelas gentes do norte que vem nesse mesmo sentido: “O norte é Portugal, o resto são conquistas”. Mais uma vez a geografia parece valorizar mais a nossa capital. Somos um país que sofre da doença de macrocefalia. Tem uma cabeça muito grande para um corpo tão pequeno. Esta disparidade entre o litoral e o interior, entre Lisboa e o resto do país reflete bem a nossa mentalidade de pequenez bem vincada na Língua. Reparem, caros leitores, no uso contínuo do sufixo “inho”.

Dá-me um cafezinho”, “é só um instantinho”, “fui ao mercado comprar umas coisinhas”, “estamos benzinho”, “ó pazinho”, etc., etc. Claro que alguns diminutivos são aumentativos como : “a água está fresquinha” quer dizer que está muito fresca.

Os senhores sociólogos e psicólogos poderão, com mais sabedoria explicar este nosso hábito tão português.

Eu, que sou leigo na matéria, acho que esta maneira de ser até se reflete nos nossos políticos, quando se trata de afirmar o nosso país nos fóruns internacionais parece que se encolhem diante das chamadas nações grandes. Vejam bem que até na palavra “pequenino” tivemos que inventar “pequenininho”. Se tivermos em conta o território, evidentemente, não temos muita superfície, mas esquecemo-nos que a Bélgica é do tamanho do nosso Alentejo, somos maiores que a Holanda, a Dinamarca, o Luxemburgo, etc.

Portanto deixemo-nos de lamúrias e de desculpas para não fazermos nada ou então para só sabermos criticar, mas fazemos grandes festas quando um político visita as nossas terras, quando instantes antes até dissemos cobras e lagartos deles.

Somos tão capazes como os outros povos e em certos casos até somos melhores. Não chego ao exagero do senhor Presidente da República quando afirmou que somos o melhor país do mundo, mas que somos alguém que só tem de se orgulhar do seu passado e trabalhemos todos para que nos possamos orgulhar do nosso presente e do nosso futuro. Os jovens aí estão para o provarem mesmo aqueles que foram para o estrangeiro porque os nossos políticos não têm unhas para tocar guitarra a não ser para cantar o fado.

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