SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 07:21

França

A propósito do campeonato de futebol em França e da nossa memorável vitória sobre a equipa francesa, gostaria de elucidar os meus leitores sobre a mesma França e sobre os caminhos que os nossos emigrantes trilharam até ao reconhecimento, pela própria França, do papel dos portugueses no seio dessa grande nação.

Vivi durante quatro anos em Paris. Aí me casei e aí trabalhei e aí estudei. Desde 1966 até 1970. Foi um período de grande emigração, pois além dos que procuravam uma vida melhor, conheci vários jovens que fugiram à guerra colonial. Mesmo assim cuido que estes últimos também não estavam totalmente seguros pois a P.I.D.E até em Paris tinha agentes embora disfarçados.

Lembro-me muito bem de, um dia, a minha mulher me pedir para irmos visitar Champigny porque queria ver com os seus próprios olhos a miséria e sobretudo verificar no local como viviam alguns portugueses conhecidos dela. Embora estrangeiros como eles, nós sempre tivemos a sorte de fazermos uma vida como qualquer francês pois não fomos para ganhar dinheiro. O espetáculo que se nos deparou foi qualquer coisa que ainda hoje me incomoda: alguns viviam dentro de cabines de camiões velhos, outros faziam a barba fora das barracas, o cheiro das águas sujas que corriam em pequenos regatos era nauseabundo e o palavreado era de arrepiar. Ao verem-nos, pensando que éramos franceses, esse mesmo palavreado atingia os mesmos franceses. Entre nós, por prudência, falávamos francês.

Eu tinha prevenida a minha mulher para não ir porque eu já sabia aquilo que iríamos encontrar.

Na própria cidade de Paris, conhecíamos, pelo modo de se apresentarem, alguns portugueses, muitas vezes gente muito nova, que olhavam para nós e para os franceses que estavam na esplanada dum café mas nunca entravam. Infelizmente, nesses anos, os portugueses eram pouco considerados socialmente embora fossem muito estimados nos respetivos empregos. Conheci o dono duma fábrica muito meu amigo, que me dizia que lhe enviasse os portugueses se eu soubesse de alguns que procurassem trabalho. Ainda arranjei emprego a alguns que me conheciam.

Compreendia perfeitamente, nessa altura, os portugueses, a maior parte dos quais tinham ido a salto, porque eles fugiam da miséria do seu país cuja ditadura até nem os deixavam sair legalmente, não lhes dando o passaporte.

De toda a maneira nunca nenhum francês me disse mal dos portugueses mesmo aqueles que não sabiam que eu era português. Nunca li notícias de roubos ou de desordens provocadas por portugueses ao contrário dos argelinos.

Todo este meu testemunho vem a propósito para realçar o caminho que a comunidade

Portuguesa percorreu até aos dias de hoje. Todos se integraram perfeitamente e fiquei muito comovido quando vi inaugurarem um monumento em Champigny aos heroicos portugueses desses anos de coragem e de trabalho.

No Maio de 1968, perante as greves, a ausência de transportes, as lojas fechadas e o lixo que subia quase ao nosso primeiro andar, a minha mulher ficar receosa e me pedir para pormos a bandeira portuguesa na varanda. Não foi preciso porque o De Gaulle resolveu a situação. Nunca andamos tanto a pé pela cidade toda!

Estou grato à França e aos franceses que me receberam muito bem e nunca senti qualquer sentimento xenófobo para connosco e até redobravam de atenções quando sabiam que eu era professor.

Agora senti um orgulho imenso quando vi a nossa equipa ganhar o campeonato da Europa e precisamente à seleção gaulesa. Imaginei-me em Paris nesta altura a celebrar a nossa vitória erguendo uma bandeira portuguesa. Agora sim que a hasteava na nossa varanda.

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