SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 22:21

Professores

Se houve classe maltratada, nos últimos dez anos, foi a dos professores. Começaram por ser atingidos nas suas organizações, nos seus direitos e deveres pela ministra Rodrigues. Depois começaram a ser dispensados e mais ainda a ter que mostrar os seus conhecimentos científicos como se as universidades que os formaram fossem incompetentes. Poucas ou nenhumas protestaram diante de semelhante enxovalho.

Congelaram-se as carreiras, cortaram-se os ordenados e fizeram dos professores burocratas que passam o seu tempo a preencher grelhas, fazer relatórios, com reuniões que só terminam tarde. Alguns professores entram na escola às nove da manhã e regressam a casa às nove da noite, para já não falar daqueles que estão deslocados centenas de quilómetros.

Os professores sempre foram preparados para ensinar e, hoje em dia, preenchem a maior parte do seu tempo entre papelada e reuniões. Gostava de saber quem lê toda essa papelada! Pergunto eu: que disposição terá um professor para ensinar e educar os seus alunos, no dia seguinte, quando nem sequer teve tempo para falar com os seus próprios filhos? Querem transformar os professores em funcionários de secretaria e ainda especialistas em lidar com alunos cujo comportamento roça as raias da má educação e do desprezo ou alunos especiais que mereciam técnicos especiais. Mas a mania da integração a todo o transe transtorna até os melhores.

Instalaram-se no Ministério da Educação burocratas aparafusados aos seus lugares e cujas produções são diretivas em linguagem encriptada, mostrando a sua sapiência para baralhar e confundir o professor menos experimentado.

Já no meu tempo eu me divertia a sublinhar frases nalguns documentos do Ministério que, examinados linguisticamente, nada queriam dizer. Bronze sonante sem qualquer sentido. Assim mostravam a sua sapiência os tais burocratas para depois considerarem os professores burros.

Hoje em dia os professores são uns heróis que, apesar de todas estas safadezas, são benquistos pelos seus alunos. Estes serão os seus melhores juízes e testemunhas da dedicação, da sua ciência e da sua entrega, contra muitas vezes a incompreensão dos papás que, em casa, não os sabem educar os seus pupilos. Fiquei horrorizado quando vi professoras chorar porque numa grelha ou relatório havia pequenas falhas e os seus diretores as trataram como lixo e incompetentes. Onde já se viu semelhante desconchavo? E a desconsideração pelos professores do primeiro ciclo?

Amigos leitores, leiam alguns testemunhos de alunos que viram partir para a reforma um seu professor:

“À sexta-feira, quando me levantava/Não tinha vontade de fazer nada/Mas quando me lembrava/Que a última aula era por si dada/Logo a vontade aumentava/Não queria acreditar que nos ia deixar/ A saudade já instalada/No meu peito gritava.”

“Tem muito jeito para ensinar/Por isso gostei tanto de o ouvir falar/Quando soube que ia partir/Não me deu vontade nenhuma de rir.”

“Quando soube que ia partir/ Não soube o que sentir/Se havia de chorar ou rir/Pois a vontade que eu tinha/Era de não o deixar ir.”

“Poucas aulas tivemos/Poucos dias nos aturou/Com muita pena nossa/Um amigo nos deixou.”

“Sempre bem-disposto/Sempre com um sorriso/Este é o nosso “stor”/ Que nos deu juízo.”

“No primeiro dia/ Toda a sala 23 se iluminou/Com a sua alegria/ Quando entrou aquela porta/ Toda a tristeza foi morta.”

“Tem muito que fazer?/Não, tenho muito que amar”/ Como se lê no livro-diário de um professor”/É assim que eu o vejo, este grande professor/Nunca a pensar no trabalho que fazer/ Mas na língua que tinha de amar/ Quando o vi, pensei que as suas aulas ia detestar/ Mas enganei-me, e um professor “porreiraço”você se revelou/ E logo a turma conquistou.”

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