SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 16:39

Educação e Mentiras

Mais uma polémica acesa por causa dos colégios subsidiados pelo Estado. Vou tentar esclarecer alguns pontos porque, durante alguns anos, mesmo antes do vinte cinco de Abril, fui professor em colégios privados. Nessa altura, a Igreja tinha, em quase todas as sedes de concelho, colégios pagos pelos pais dos alunos, porque só havia os “liceus” nas cidades capitais de distrito e numa ou noutra cidade importante. Nessa altura ninguém reclamava nem podia reclamar porque estávamos em ditadura. Tantos e tantos portugueses beneficiaram deste ensino sem o qual não poderiam ter acesso à Universidade. Aliás o Estado obrigava a que os alunos desses colégios prestassem provas nos liceus respetivos e nunca concedeu equivalência ao ensino privado mesmo com provas dadas de grande sucesso nos exames.

Depois do vinte cinco de Abril, alguns desses colégios transformaram-se em Ciclos Preparatórios e depois em Escolas Secundárias. As dioceses cederam os antigos edifícios sem grande custo para o Estado. Quando, depois da revolução, cheguei a Torres Novas, ainda os colégios eram pagos integralmente pelos pais dos alunos com algum auxílio da Igreja. Entretanto a democracia estendeu-se também a este ensino e fizeram-se os primeiros contratos de associação com o Ministério da Educação, naqueles locais onde ainda não chegava o ensino oficial. Começou aí o alargamento do ensino privado porque subsidiado pelo Estado. A mira do lucro subverteu este ensino que começou por ser subsidiário do ensino estatal e começou a ser objeto de lucro.

Lembro-me perfeitamente que nos anos oitenta eu fiz parte duma delegação do antigo colégio Andrade Corvo ao Ministro da Educação da altura cujo nome não recordo. Sei que já faleceu. E o Senhor Ministro perguntou quanto custava cada aluno ao Colégio (só os externos) e quando o diretor lhe apresentou os números, o senhor Ministro ficou espantado dizendo que gastava quase o dobro com os alunos das escolas oficiais nos mesmos graus de ensino. Começaram então as manobras de alguns deputados e antigos governantes que, ao deixarem as suas funções, fundaram colégios subsidiados pelo Estado mesmo em localidades onde havia ensino oficial. Os preços subiram, as cunhas também e eis-nos chegados à atualidade com argumentos de parte a parte e que não levam a lado nenhum. Não se justifica, mesmo com a Igreja, que se subsidiem os colégios só porque são católicos. Se os católicos acharem que os seus filhos serão mais bem educados em escolas confessionais, têm que as pagar. Assim é que está correto. Como se os pais querem ter uma educação de elite para os seus filhos devem pagá-la porque têm à mão as escolas do Estado que, felizmente, na sua grande maioria são escolas de grande gabarito. Não estou a falar de cor porque trabalhei nos dois lados. Não estão em causa os profissionais, meus colegas, porque os há muito bons tanto num lado como no outro. O que está aqui em causa é o terrível lucro que estraga os melhores ideais. Infelizmente a democracia ainda não chegou a todo o lado. Já não falo na Universidade Católica, escola de prestígio internacional, mas que, apesar das altas propinas, ainda é subsidiada pelo Estado. A que título? Sejamos coerentes e lúcidos. Não nos deixemos enganar por falsos profetas e não sejamos maniqueus.

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