SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 16:59

O Tiago

Esta história que vou contar passou-se com uma turma de Português B que eu, nesse ano, lecionava. Em geral a turma até correspondia aos meus esforços e eu estava medianamente satisfeito com o seu rendimento. Estava habituado a lecionar o português do 12º B e tinha sempre como objetivo não só o rendimento durante o ano letivo mas também a preparação para os exames nacionais no fim do ano.

Tinha um aluno chamado Tiago que, talvez por ser o ai-Jesus das meninas, estudava pouco e a distração era para ele habitual mesmo quando eu, ao explicar a matéria, passeando na sala, parava junto dele. Era um rapaz divertido e parecia-me muito despreocupado. Normalmente, como era um ano de exame, eu fazia três testes por época, embora com muitas lamentações da turma que pensava que eram testes a mais. Eu achava que, quanto mais os habituasse a fazer testes, melhor eles se desenvencilhariam nos exames nacionais.

O meu amigo Tiago (se por acaso me leres sabes que é verdade) andava sempre entre os oito valores e os dez. Raramente tinha um dez. Claro que, ao entregar os testes para fazermos a correção, passava um raspanete valente ao meu amigo Tiago. Ele, com a bonomia que o caracterizava, ouvia o meu sermão mas sempre com um grande sorriso e sempre com promessas de estudar mais e estar mais atento nas aulas. Estávamos em Maio e no último teste, o Tiago teve um oito. O meu sermão foi maior fazendo-lhe ver que estávamos quase a chegar aos exames nacionais e ele não havia meios de subir a nota.

Então, já quase no fim das aulas, aproximando-se a data dos exames nacionais, tive uma longa conversa com a turma, dando-lhe algumas indicações sobre os exames e a maneira de superarem as dificuldades que iriam encontrar. Tantos anos a lecionar,conhecia a estrutura das provas e as possíveis armadilhas que os alunos iriam encontrar. Embora eu tivesse a certeza que a maioria ia ter êxito, gostava que os meus alunos fossem dos melhores. As classificações finais raramente me deixaram ficar mal, graças ao esforço deles. O mérito era deles. Nunca me deixei orientar pelos “ranckings”. Aliás porque eu era sempre chamado para corrigir testes e, portanto conhecia toda a mecânica dos senhores do Ministério da Educação.

Nessa longa conversa, voltei-me para o meu amigo Tiago e disse-lhe:

-Tiago, vamos fazer um acordo: se no exame final de Português tiveres um dezasseis, eu dou-te uma mota.

Resposta:

-Veja lá professor no que se mete. Vá preparando o dinheirinho da mota.

A turma toda se riu e eu, tranquilo porque me parecia um feito mais que heroico para o Tiago.

Fizeram os exames e, no dia da fixação das pautas, lá estavam todos a verificar as suas classificações em Português. Também lá estava o Tiago. Passados uns minutos aparece-me ele na sala dos professores, muito eufórico e só me disse:

-Por pouco, professor, eu não tive uma mota nova.

-Porquê?- perguntei eu.

-Sabe quanto tive em português?

-Eu não. Ainda não fui ver as pautas.

-Olhe, tive catorze vírgula oito.

-Não é possível. Estás-me a enganar.

-Eu não. Venha ver.

Fui ver e lá estava de facto a nota do meu amigo Tiago. Era melhor que alguns bons alunos da turma. Fiquei, como é de supor, muito contente, dei-lhe os parabéns e os outros alunos que estavam presentes exclamaram:

-Ó professor, hoje saiu-lhe a sorte grande. Já viu se o Tiago se tivesse esforçado mais, teria que lhe dar o prometido?

Nunca mais me esqueci deste episódio. Se me leres, amigo Tiago, espero que na tua vida tenhas triunfado como triunfaste do teu professor que te avaliou mal.

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