SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 09:09

Tarde de mais

 

Em entrevista à Antena 1, Francisco Van Zeller, presidente da CIP, deixava parecer as saudades que tem de Cavaco Silva primeiro-ministro (estará mais mal servido?), ao dizer, «Cavaco devia gostar de ser primeiro-ministro agora, porque sendo ele economista, tem uma visão mais alargada e mais criteriosa sobre a crise e tem ideias mais firmes do que deve ser feito agora». Van Zeller elogiou o papel positivo das «offshores» que «servem, muitas vezes, para estacionar dinheiros que dali partem para outros locais». Uma espécie de parques de estacionamento! Criminosos esconderijos daquelas resmas de dinheiros provenientes de lucros de milhões que andam a fugir aos impostos. E o país que os produz a ver navios! Ora, Cavaco, além dos que já levava como ministro de outros governos, esteve lá dez anos como primeiro-ministro com maiorias parlamentares e no tempo das vacas gordas em que chovia dinheiro de fundos da UE. Quando se dizia, é preciso recordá-lo, que o maior problema de Portugal era saber como e onde gastar tanto dinheiro. Para eles foi como «sebo em nariz de cão!» A construção de meia dúzia de estradas, a criação de muito desemprego, a criação de «offshores» em paraísos fiscais, a passagem da reforma das mulheres dos sessenta e dois para os sessenta e cinco anos, a plantação de algumas florestas de betão, etc., foram algumas coisas «boas» que Cavaco proporcionou ao país. Pagava-se a quem arrancava vinha e oliveiras, pagava-se a quem abatia barcos de pesca, pagava-se a quem deitava o pescado ao mar depois de haver subsídios para a pesca. Gastava-se fundos em cursos de formação fantasma, pagando bem a formadores que disso tinham pouco e muitos dos formandos depois dos cursos que nada lhes valeram eram chamados a rescindir o contrato com a empresa passando ao desemprego. Enquanto os nossos parceiros com os fundos recebidos renovavam a sua frota pesqueira, modernizavam a sua agricultura, a sua indústria, etc. Hoje são menos dependentes do estrangeiro que nós. Ultrapassarão, seguramente, a crise que se vive muito mais facilmente que Portugal. Mas este país tem sido, e continua a ser, dizem-no as estatísticas, o paraíso onde mais facilmente os ladrões se movimentam e fazem fortunas ilicitamente. Paira ainda no ar o cheiro do perfume da política de Cavaco deixado pela sua frase maravilha, «se os bancos estiverem bem, também a sociedade e a economia o estarão». Nenhum cidadão, por mais ingénuo que seja, diria uma barbaridade destas. Na altura o comentador da SIC, Coimbra, Dr. António Marinho, hoje bastonário da Ordem dos Advogados, perguntou, «então Cavaco não sabe que os bancos são um sector não produtivo e uma máquina de fazer pobreza?».

 

Trinta e cinco anos após o 25 de Abril, Boaventura de Sousa Santos, na Visão, falava há tempo genericamente da destruição do Serviço Nacional de Saúde, acrescentando, «mais lucrativo que o negócio da Saúde, só o negócio das armas». Citava dois ou três furacões dos nossos governos, como Luís Filipe Pereira e Bagão Félix, ministros da Saúde e do Trabalho e Segurança Social, respectivamente, do governo de Barroso, que quiseram privatizar a Saúde e a Segurança Social, mandaretes dos «Melos» e das Seguradoras. Até Barroso quis privatizar a CGD. E se estes homens sem escrúpulos tivessem conseguido os seus objectivos? Portugal seria hoje outra Islândia e até as nossas reformas estariam ao serviço da especulação dos bancos e das seguradoras. Boaventura de Sousa Santos apontava Correia de Campos (ex-ministro da Saúde) como o coveiro da Segurança Social desde que passou pelo Banco Mundial. E recordava que desde que pertenceu à Comissão do Livro Branco da Reforma da Segurança Social com Correia de Campos, verificava que este não tinha como parceiros os seus camaradas socialistas, mas sim Luís Filipe Ferreira e Bagão Félix. Com socialistas destes para quê aqueles tubarões? O fiscalista Prof. Medina Carreira, ex-ministro das Finanças de Guterres, em entrevista a Maria Flôr Pedroso, perguntava outro dia como é que as decisões da EU podem ser capazes se são tomadas por homens falhados nos seus países. E acrescentava, «se não prestam nos seus países, como prestam na UE? São nomeados para servirem os interesses de quem os nomeia».

 

Quando Vasco Gonçalves dizia em 1975, «certas forças políticas querem fazer da Saúde uma grande área de negócios», chamaram-lhe (os mesmos) paranóico que sonhava com ladrões. Paranóico não era, mas sonhar com ladrões, confirmou-se. Eles instalaram-se e têm-nos levado o coiro e o cabelo. E a procissão ainda vai no adro!

 

Olhem qu’isto!

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