SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 28 Setembro 2020, 12:47

Às vezes, pergunto-me porque nunca acerto no Euromilhões

  

O presidente Cavaco Silva aceitou a demissão do primeiro-ministro Sócrates (boa!), transformou o governo PS em governo de Gestão (muito boa!) e convocou eleições, após ouvir os partidos políticos com assento na Assembleia da República, para 5 de Junho (nem boa, nem má).

 

Todos se querem livrar de Sócrates (aplaudo). Corrijo, todos não. Os afilhados daquele, colocados desde 2004 em tudo quanto é tacho, cargo, administração, parceria público-privada, directoria, fundação, governo civil, cargos de chefia, entregam-se à agonia do Titanic – a ver quem sobrevive.

Não acredito, sinceramente, que as eleições tragam a este país a mudança estrutural que seria necessária. Nenhum dos partidos do centrão, PS ou PSD, conseguirá uma maioria absoluta. O segundo ligar-se-á ao CDS, para continuar a política neo-liberal do bom aluno de Blair, chamado José Sócrates, com a destruição do estado social, do serviço nacional de saúde, da escola pública, da privatização dos canais público de televisão, da Caixa Geral dos Depósitos, de tudo o que permita às elites empresariais e financeiras controlar a economia dum país. Menos Estado, melhor Estado, será o lema de quem sempre assenta no direito ao privilégio, à diferença social, ao enriquecimento à custa da agiotagem, de vencimentos precários, despedimentos, bondade misericordiosa para com a pobreza e o desemprego crescentes. Um povo pobre, um povo submisso, um povo manipulado, eis o lema do centro direito. Nada muito diferente do programa do PS de Sócrates (creio que há outro, ou outros, mas que, cúmplices da vida fácil, do tacho político, se limitaram, como constatou o jornalista de O Público, José Vítor Malheiros, nestes tempos do reizinho, a jogar às cartas).

 

Daí que este PS de Sócrates, na minha opinião, também não chegue lá. É previsível que troque de posição com o PSD – para o baile de debutantes são precisos sempre dois –; espero pessoalmente que perca muitos votos – e perde-os, se as famílias portuguesas pensarem no que lhes foi sendo roubado, em impostos, em IVA, em IRS, em taxas camarárias, em estagnação salarial.

 

Os gurus da política liberal portuguesa, Soares, Cavaco, Freitas do Amaral, Almeida Santos, Marcelo Rebelo de Sousa, Júdice, Portas, Pacheco Pereira, (mas não Passos Coelho, um simples peão de brega doutros jogos mais complexos), os mentores económicos da CIP, CAP, AIP e outras siglas de poder, os patrões financeiros, os do import-export, os das grandes associações de advogados que fazem as ligações desta teia de interesses, todos  em nome da pátria (deles), defendem , após eleições, um governo PS- PSD-CDS, ou só PSD-PS, ou ,no pior dos males, PSD-CDS.

 

A primeira constatação é que os números das sondagens dos seus jornais anunciam que o povo quer isso. Quer? Quem responde a estas sondagens? A classe trabalhadora? Os desempregados? Os jovens com emprego precário? Os funcionários dos centros comerciais? Os pescadores? Os estudantes universitários? Os ferroviários? Os camionistas? É um segredo bem guardado, esta caverna de Ali Bábá das sondagens eleitorais portuguesas…

 

A segunda constatação é que não há lugar, a não ser no cais do protesto, para a esquerda portuguesa, na Assembleia da República( mas há mais) representada pelo PCP e Bloco de Esquerda.

Sendo o centro – esquerda partidário ,teoricamente,  no Parlamento, maior em número de deputados que o centro-direita, não há nenhum órgão da imprensa portuguesa, nenhum conselheiro de estado, nenhum comentador político da imprensa e da televisão, nenhum político,  que projecte, em alternativa, um governo saído desses três partidos: PS. PCP, Bloco de Esquerda?

Surdez? Lepra? Faca na boca? Saramago chamou-lhe cegueira.

 

Mas, também à esquerda, o dogmatismo partidário cega mais que a cegueira alheia. Não é possível dialogar com surdos, que nunca se enganam, que vivem das certezas das cartilhas de todas as derrotas que sempre transformaram em vitórias, desde que o dilema Reforma – Revolução dividiu trabalhadores, criou partidos irmãos que se perseguiram até à destruição, tribunais que condenaram à morte e ao mundo concentracionário camaradas de ontem, sindicatos que se odiaram mais do que ao patronato, na sua divisão de ódios criado por políticos com a democracia na boca e os dólares no bolso.

 

Depois da presumível derrota dos partidos do centro-esquerda nas eleições de Junho, que acrescentarão à cartilha, o povo continua enganado, um dia vai abrir os olhos, e aí por diante. Não dirão, estes que os dirigem nunca o farão, que o povo tem razão e que quem anda enganada é a tendência para falar em nome dum povo…

 

As próximas eleições de Junho irão demonstrar a crescente tendência, evidenciada nos últimos actos eleitorais – o avolumar da abstenção, que é já hoje o maior partido nacional. O cada vez maior divórcio entre eleitos e eleitores, que no momento em que escrevo, os primeiros já sabem ou discutem em que lugar ficam nas listas, os segundos não têm o mínimo interesse no que aí vem, porque há trinta anos que se os nomes mudam, a política mantém-se, depois das eleições não será diferente, e sobre os cidadãos é que recairá o mal e a caramunha.

 

Mas não haverá solução? Creio que há. Por mim, começava por impor, através do voto, um governo de centro-esquerda, sem Sócrates, nem a maioria dos manipansos que têm, há duas décadas, costurado esta falência nacional. E apostava em vectores fundamentais – transparência política, desenvolvimento económico, assente no mar, na agricultura e na indústria; novo sistema tributário, assente numa filosofia inversa da de hoje, paga quem mais tem, a cada um só vencimento, um só subsídio, uma só reforma; defesa da qualidade do estado social; incentivos fiscais ao pequeno e médio empresário; defesa intransigente do emprego. E fundamentalmente, ouvia com muita atenção as vozes dos que trabalham e produzem a riqueza.

 

E a Merkel , Sarkosi ,  Zapatero, aos seus banqueiros e financeiros, que são aparte substantiva da grande força especulativa, do que se chama,  em Portugal, os mercados, dizia-lhes : Basta.

 

antoniomario45@gmail.com

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