SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 13:02

Memorabilia XXXIII- 1974 (1)

Dos quase quatro meses que nos levaram ao 25 de Abril, tentámos referenciar em três artigos o que de mais importante nos chamou a atenção, no mundo, em Portugal e no concelho de Torres Novas. Cuidado, o que adiante se lerá, neste e nos artigos futuros, não pretende ser algo mais que uma visão pessoal dum tempo de que as novas gerações têm pouco conhecimento

O Presente

No mundo contemporâneo, em profunda mutação de valores e interesses, no que nos parece, na história de média duração iniciada com o pós -2ª Guerra Mundial, prenunciar-se um novo ciclo, assente nas consequências sociais, económicas, políticas decorrentes da aceleração do tempo motivada pelas novas tecnologias sobre a vida das sociedades humanas. A informação escrita – a liberdade de imprensa -cede o seu anterior poder às novas formas de comunicação assentes na exploração da imagem visual, nos canais televisivos, no telemóvel, na Internet, nas redes sociais, onde a notícia se amplifica e adultera a cada intervenção, numa criatividade em que se procura antes de mais o controlo do outro (Onde estás? Que respondes?), numa opinião transformada em verdade/realidade, que não se identifica com o acontecimento inicial (que deixa de ser motivo fundamental), criando uma outra , fluida, mutável, consoante a ganga que se lhe vai acrescentando.

É um mundo global, que cria resistências, anuncia perigos, revela raivas e orgulhos feridos – um mundo onde os direitos humanos são postos de lado por ocultos poderes que coordenam e gerem, como abutres em campo de massacre, os destinos das sociedades, injustamente tratadas no seu direito, não a um futuro digno, mas à simples sobrevivência. Um mundo sombrio, onde alastra a cada dia que passa, a desumanidade, a indiferença, o individualismo. Onde os conceitos essenciais da vida colectiva, com regras democráticas, princípios de respeito e dignidade sociais, começam a ceder ante o medo do terrorismo, da realidade dum desemprego crescente, da noção muito clara de que a corrupção económica e financeira é protegida pelos Estados em relação aos seus quadros políticos, de que as desigualdades são uma forma de controlo das massas para fins de propaganda e populismo – o que não é novo – se relembrarmos os totalitarismos do século XX antes da 2ª Guerra Mundial.

O Passado

O caso da vitória de Trump nas eleições americanas, acusado de ajuda pela Rússia, leva-nos a um caso célebre, com fim em 1974, o Caso Watergate, onde o presidente Nixon se demite (8/8/1974), para não ser destituído pelo Senado. Assentava acusação, comprovada, que no período eleitoral o governo republicano procurara conseguir informações de forma ilegal na sede do Partido Democrático. Teve papel importante na descoberta da tramóia o jornalismo de investigação do Washington Post.

Os meios eram outros, os objectivos não muito diferentes.

Se na Europa, a social democracia atinge o seu nível mais elevado com vitórias dos trabalhistas, com Harold Wilson em Inglaterra (28/2/1974), Olof Palm, na Suécia(16/9/1973), Brandt na Alemanha, já os países do Sul, Espanha, Portugal e Grécia, procuram fazer perdurar ditaduras , quase sempre assentes no poder militar.

A América do Sul, contaminada pelo golpe militar de Pinochet em relação ao governo socialista de Salvador Allende no Chile(11/9/1973),com o apoio da CIA americana, a agitação social leva ao estado de sítio na Bolívia, ao início da guerrilha revolucionária na Colômbia, à eleição do general Ernesto Geisel no Brasil, que aplica medidas de carácter anticapitalista. As ideias de Che Guevara agitam todos os movimentos revolucionários das Américas de língua portuguesa e espanhola, com profunda influência nos movimentos radicais estudantis da Europa e – dos Estados Unidos..

No Médio Oriente, mantém-se – como hoje – o conflito israelo-árabe, com os Estados Árabes a romperem relações com Israel, na defesa dos palestinianos.

Na África sucedem-se as lutas de libertação colonial, as tomadas autoritárias do poder, a eleição do poeta da negritude Lepold Shengor, como presidente do Senegal, defensor duma democracia pluralista . Já no Corno de África, a leste, na Etiópia, o imperador Heilé Selassié é deposto, criando-se um estado socialista e de partido único.

Na Ásia, no Cambodja, os Khmeres Vermelhos bombardeiam a capital Pnom-Penh , enquanto a China e os vietnamitas se digladiam pelo domínio do mar da China.

A CEE, na Europa, pelos seus fundadores, procurava afirmar o que ate hoje se revelou utópico – um mundo livre, de unidade solidária, que fosse um dos locais no planeta com capacidade de impedir que a globalização se transformasse num pesadelo para a humanidade.

Décadas depois, a sua desagregação e retrocesso ao individualismo nacionalista, relembram como se mantiverem na memória das sociedades os pesadelos que conduziram à 2ª Guerra Mundial.

Em conclusão

Ler o passado oferece-nos ferramentas para o mundo traumático de hoje. Onde, acima de tudo, se enfrentam duas mentalidades antagónicas: a defesa dos totalitarismos e do autoritarismo populista e, no lado oposto, a consciência cada vez mais aguda entre os povos do planeta de que a defesa da liberdade, dos direitos humanos, do respeito à diferença, do emprego à saúde, passa pela intervenção de cada um.

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