SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 16:10

Memorabilia XXII 1969 -2

Não deixa de ser um acaso, mas curioso. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi festejar com os estudantes da Universidade de Coimbra o 17 de Abril de 1969, dia em que, como titulava o Diário de Notícias desse mesmo dia de 2016, «o dia em que os estudantes de Coimbra começaram a Revolução de Abril». Exactamente o dia em que o almirante Américo Tomás recusava a palavra ao presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins. Fugiu, com a sua corte de generais e figuras gradas do regime, deixando para trás um jovem que, quando saíram, «subi para cadeira e falei». Foi preso pela PIDe nessa noite, libertado no dia seguinte ao meio-dia, voltando depois à cadeia agora pelas mãos da P.J. Mais de 220 estudantes foram caso da ira da ditadura, , escreve Paula Sofia Luz , 47 anos depois no seu artigo , 49 incorporados compulsivamente no exército, enviados bastantes para as guerras no Ultramar.

Como o tempo cria os modos de compreensão do real! Um presidente que, com tudo na mão, foge; um presidente que, quase meio século depois, só com a arma da democracia, procura o encontro e comemora! O ministro da Educação, por causa da crise, foi obrigado a demitir-se. O mesmo aconteceu ao reitor da Universidade de Coimbra! Em 10de Maio, O Almonda noticiava: Encerraram as Aulas da Universidade de Coimbra

Não conta que, nestas prisões, estava um torrejano, estudante em Coimbra: o João Pena dos Reis. Pelo menos, outro, também lá andava: O Lizardo. Só tínhamos a ganhar se se resolvessem a contar as suas histórias das história desse tempo. Ao contrário do que fez o Presidente da República actual, outrora as notícias estudantis que a censura deixava passar tratava os jovens contestatários como traidores à Pátria. A Nação, ou o que o regime pensava dela, perdia os seus futuros dirigentes, os seus futuros médicos, advogados, professores, engenheiros, políticos, os seus próprios oficiais, que em contacto com esses militares milicianos, oficiais e sargentos, começavam a pensar como acabar a guerra. 1969 foi o ano de viragem. As eleições legislativas, mais um momento de descrédito do regime, ainda que com outro primeiro-ministro, cercado no seu próprio poder. E as eleições relembram-me o meu amigo e colega de ensino, Ernesto Pinto Ângelo, que, por ter apresentado as listas de oposição no Virgínia, perdeu o lugar que ocupava há anos no ensino nocturno, como professor na então Escola Industrial e Comercial de Torres Novas, sendo obrigado a emigrar para os Estados Unidos.

Mas o mundo não parava. E, no fim do ano, nas grutas das Lapas, o padre Manuel Tiago, com a conivência do Amílcar Fialho, trazia-nos como prenda de Natal o menino do bairro negro na voz inconfundível e inquebrável de José Afonso, ou o Vemos , Ouvimos e Lemos , na voz mais aguda de Francisco Fanhais.

Os jovens apareciam, frequentavam as actividades do cineclube, do Phydellius, dos ranchos, das bandas filarmónicas, escreviam nos jornais escolares, o teatro amador ganhava asas, homenageavam em sessão pública escritores torrejanos, como Maria Lamas, José Lopes dos Santos, Faustino Bretes, António Borga.

Em Lisboa o poeta torrejano José-alberto marques iniciava a apresentação pública dos seus poemas, já dos seus dois livros publicados, A Face do Tempo (1964) e Hoje, mas(1967), já da sua colaboração em Poesia Experimental 2 (1966) ,ou dos seus Homeóstatos in Operação-1 (1967). 47 anos depois , depois duma intensa vida literária, publicou o seu último romance experimental, NarrativYlirica.

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