SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 05:55

Timor e Portugal – A eterna dupla

José Matoso, na sua excelente obra sobre a história recente de Timor “A Dignidade – Konis Santana e a resistência” assume ter descortinado no contexto da sua investigação, que a arma que em Timor derrotou o ocupante indonésio, um dos maiores exércitos do mundo, foi a dignidade do Povo de Timor Leste.

Xanana Gusmão goste-se ou não, é um líder carismático que, como muitos Timorenses, dedicou a sua vida a causa da libertação do povo maubere. Xanana é, inequivocamente, como muitos outros, um homem honesto, tolerante e de bem.

Sei e assumo a inconfidência, que Xanana nutre por Portugal um profundo respeito de gratidão e, mais do que isso, admira o trabalho que os Portugueses têm feito em Timor, muito em especial após a independência.

Xanana chorou quando em 1975 percebeu que Portugal, iria abandonar os timorenses à sua sorte, fugindo para a ilha de Ataúro e dali para Austrália…. Há quem chame a isto de descolonização… e, depois foi o que se soube… a invasão indonésia com a respectiva matança de duas centenas de milhares de seres humanos que falavam Português. Eram cidadãos portugueses à luz da História e da lei internacional… temos políticos de alta responsabilidade pública, que na década de oitenta escreveram ou disseram, que Timor era uma causa arrumada e, outros ainda, que era um “enorme transatlântico perdido no mar que saia muito caro a Portugal”…

Veio a independência e chorámos de emoção.

Rezámos por Timor e sofremos por Timor.

Timor foi, aliás, a única causa que, como a revolução de Abril, uniu todo o povo português.

Xanana e o Povo de Timor sabem disso.

Tudo isto vem a propósito dos últimos acontecimentos que têm provocado numa parte da comunidade portuguesas inusitadas criticas que, para além de injustas, algumas delas são ainda gritantemente ofensivas da dignidade dos homens e mulheres que, no Governo timorense, representam um Povo que é independente há 12 anos…

Há corrupção em Timor? Dizem que sim…

Há corrupção em Portugal? As notícias dizem que sim. É só olhar para os bancos, para as PT’s e tudo o mais que queiramos…

Mas há uma pequena, grande diferença. Timor está a estruturar-se como nação… está a instalar os pilares de uma administração pública, sustentáculo de um Estado organizado e de direito. Após a independência, Timor não tinha recursos humanos capacitados para o grande desafio de ver crescer um país… o tal que dizíamos ser o primeiro do séc. XXI.

Portugal é Estado há mais de 800 anos… faz parte duma União de Estados na velha Europa, a mãe de todas as colonizações. Somos por isso, mais ricos e mais influentes e mais ilustrados…

Mas, Timor, com 12 anos de existência, já começou a dar algumas lições. E, já que é a Justiça a base de todo este desamor, presumo que momentâneo, lembrar que a Ministra da Justiça do anterior governo timorense, depois de investigada e levantada a respectiva imunidade parlamentar foi, também por juízes Timorenses, julgada e condenada a cindo anos de cadeia. Entrou na prisão ainda no decorrer da legislatura em que era ministra…

Se Timor, enquanto jovem Estado, tem ainda que aprender, também já pode ensinar…

Se é verdade que Xanana não mente, também é verdade que Portugal merece e de que maneira, um esclarecimento rápido sobre a verdade do que se passou.

As suas declarações sobre o comportamento dos visados obrigam a pensar e a meditar. E a ponderar as críticas, sejam elas dirigidas a quem quer que seja. Aliás, seria bom que Xanana dissesse tudo, preto no branco, para que se acabasse com a especulação e, muito em especial, se salvaguardasse o respeito que merecem os portugueses em causa.

As reacções desmedidas e injustas de muitos de nós, terão que emergir em consequência de dados concretos e objectivos e nunca por insinuações e meias palavras.

Portugal é grande com os “Pequenos” e pequeno com os Grandes.

Bem sei que os factores económicos determinam posições políticas e fazem cair a equidade no tratamento…

Angola faz o que tem feito, interfere na Justiça Portuguesa e, por via disso, lá vai até Luanda um Ministro português que se ajoelha perante interesses instalados e pede públicas desculpas, colocando Portugal e a sua Justiça, ridiculamente de cócoras, como então muitos escreveram.

Quando Passos Coelho diz que gosta de Timor mas que há limites, melhor tivesse calado, porque com Angola ultrapassou-os todos, sem pudor e sem vergonha. Também por isso desejo e aguardo o dia em que emigre, tal como sugeriu a muitos dos nossos filhos.

Estamos com a emoção ao rubro… e, no meio de tanta crítica, parece esquecermos que, quer os Timorenses, quer os Portugueses, têm direito a algo que é sagrado para todo o ser Humano: a Dignidade! A tal de que Matoso falava e que foi a arma timorense, que expulsou os indonésios… lá, como cá, somos um Povo Nobre, digno e Independente. Por isso, vamos acreditar que, tal como nos casais, este arrufo, depois de esclarecido, reforce a amizade que liga Portugueses a Timorenses que, seguramente, será perene.

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