SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 07:20

Maria Lamas

O Sr. Presidente da Câmara de Torres Novas, durante a alocução que fez na cerimónia lançamento da primeira pedra do novo centro escolar Visconde S. Gião, referiu-se à Escola Secundária de Maria Lamas em termos que não podem passar sem reparo. Em síntese, o Sr. Presidente afirmou que: (i) a Escola Maria Lamas não estava esquecida por parte da edilidade e (ii) manifestou a sua discordância radical para com a demolição do novo edifício da Escola Marias Lamas, que qualificou de “loucura”, chamando a atenção para a avultada verba que tal empreendimento exigiria.

Façamos uma sumula dos acontecimentos.

Em 2002 são inauguradas as novas instalações complementares ao corpo principal da Escola Maria Lamas.

Em 2009, a Escola foi referenciada para integrar o projeto de requalificação do Parque Escolar, uma vez que o edifício original, com mais de 50 anos de idade necessitava de melhorias urgentes e atuais que permitissem a instalação de laboratórios e equipamentos informáticos.

Nos estudos efetuados foram detetados graves erros de construção na edificação mais recente (o tal inaugurado em 2002). Tão graves que os técnicos prescreveram a sua demolição. Esta conclusão provocou as naturais perplexidades e indignação de muita gente, inclusive do Dr. António Rodrigues, que “exigiu” à então Srª Ministra da Educação, uma segunda opinião. Este segundo relatório técnico ficou a cargo do Laboratório de Engenharia Civil, LNEC, instituição de renome internacional.

Contudo, a intervenção do Sr. Presidente implicou a suspensão da necessária intervenção na Escola Maria Lamas, suspensão que, recorde-se, se mantém. Infelizmente, o parecer do LNEC veio confirmar a necessidade de demolir o edifício, ou, em alternativa, submetê-lo a intervenção de reforço das estruturas, mas de tal magnitude que os custos não seriam inferiores à sua demolição.

Desde então (início de 2011) não tivemos qualquer indício que a Câmara Municipal tomasse alguma iniciativa no sentido de intervir na Escola Maria Lamas. Nem nós, Associação de Pais e Encarregados de Educação, nem a Direção da Escola. Apesar da tentativa da Associação em estabelecer adequado canal de comunicação, um muro de silêncio caiu em torno da Maria Lamas. É chocante ver anunciada com pompa e circunstância a intervenção em edifícios mais recentes (por exemplo a Escola Manuel de Figueiredo, com cerca de 30 anos ou a Chora Barroso, nos Riachos) e ignorados os problemas com o edifício antigo da Maria Lamas, que conta já meio século, ou a insólita situação do novo edifício. Em gritante contraste com as outras escolas do concelho que têm beneficiado dum amplo programa de remodelação e construção de raiz de novos edifícios, no qual a Câmara de Torres Novas está publicamente empenhada, a Escola Maria Lamas é excluída de qualquer referência. Até ao sábado em que se lançou a primeira pedra da Escola de S. Gião.

Perante os factos podemos concluir que, (i) contrariamente ao que disse o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Torres Novas, a Escola Maria Lamas foi votada a um ostracismo agressivo, abstendo-nos, para já, de especular sobre os motivos de tal atitude; (ii) por outro lado, qualificar de “loucura” o resultado de duas peritagens técnicas coincidentes nas conclusões é uma manifestação de prepotência obscurantista, absolutamente anacrónica.

Em face dos relatórios técnicos ficou claro que o cerne da questão está nas violações grosseiras das regras de construção do edifício novo da Escola Maria Lamas, violações que, pelo menos do ponto de vista ético, podemos qualificar de criminosas. Em vez de se indignar contra este escândalo, o Dr. António Rodrigues aponta baterias contra os peritos que o denunciaram e contra a própria instituição escolar, manifestando um desprezo lamentável pelos alunos e trabalhadores da Escola.

Porquê?

Duas notas finais, à atenção da classe política.

1-         Como é possível pedir a adesão da juventude aos valores do paradigma democrático, quando ficamos a saber que o edifício antigo, construído nos tempos da ditadura salazarista, suportará melhor um tremor de terra do que o novo, edificado em plena época democrática? O regime democrático prestigia-se e solidifica-se mercê duma governação eficiente e honesta. Sem esta, a retórica e a liturgia das comemorações são ocas e hipócritas.

2-         A quase totalidade dos portugueses está sujeita a uma austeridade asfixiante, resultado duma governação despesista, irresponsável e frequentemente desonesta. Será que têm o direito de nos exigir estoicismo, quando a impunidade dos responsáveis pela desesperada situação a que chegamos (e de que o caso da Escola Maria Lamas é um exemplo) se mantém intocada?

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