SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 00:43

Política de saúde versus politiquices

A ignorância é audaz; a sabedoria, reservada

Tucídides

Na última edição de “O Almonda” tomamos conhecimento do debate organizado pela Comissão de Utentes de Saúde (designação errónea, que deveria ser substituída por “Utentes do serviço de Saúde”) para a qual foram convidados os partidos políticos. Este figurino está de acordo com a ideologia dominante, que desvaloriza os técnicos em favor dum maior peso dos “políticos”.

Da leitura da reportagem, em síntese, pode concluir-se que a única intervenção a merecer aplauso foi a Dr. Manuel Ligeiro, da CDU, que mostrou conhecimento de causa e, sobretudo, a honestidade de não ceder ao populismo e à politiquice. Explicou que, mesmo não intervindo nos cuidados de saúde, as autarquias muito podem (e devem) fazer (e têm feito) pela saúde dos cidadãos. Ao promover água potável, saneamento básico, segurança rodoviária e fomentar hábitos de lazer saudáveis o poder local está a cumprir um preceito constitucional: proteger a saúde. Esta foi a única intervenção versando política de saúde.

Pena é que a intervenção do Dr. Ligeiro tenha sido ignorada. Ao que parece até dentro próprio partido, já que o Dr. Carlos Tomé vem defender a reabertura de extensões de saúde, numa curiosa sintonia com o CDS. Ambos partidos ignoram o que se está a passar no terreno e os ganhos conseguidos com a agregação das extensões do Paço e Olaia. Em boa verdade a proliferação de pequenas extensões não promovem cuidados de proximidade.

Helena Pinto, do BE, usou a saúde como arma de arremesso político-partidário e mostrou um desconhecimento chocante sobre a matéria.

Quanto ao PSD, defende o crescimento dos cuidados hospitalares. Ora, por todo o mundo (em países tão dispares como Marrocos e os EUA, ou a Dinamarca e o Brasil) se aposta nos cuidados de saúde primários. João Quaresma ignora-os. Aparenta até desconhecer a política do seu próprio partido em matéria de saúde! A proposta do PSD representa não só uma total inversão das prioridades, ao menosprezar os centros de saúde e as suas carências em pessoal, como revela uma preocupante inquinação de bairrismo nas opções de política de saúde.

Não deixa de ser curiosa a ausência do PS e a aparente naturalidade com que esta falta foi encarada.

A construção de três hospitais, com as dimensões dos que compõem o centro hospitalar, foi motivada por razões de ordem eleitoralista e não de racionalidade de prestação de cuidados. Dito de outra forma: quem deu aval para a sua construção estava a pensar nos votos para o seu(s) partido(s) e não na qualidade e sustentabilidade dos cuidados de saúde a prestar. A estratégia dos políticos parece continuar a ser a mesma: conseguir votos, ignorando os verdadeiros interesses das populações.

Acácio Gouveia

Médico

aamgouveia55@gmail.com

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