SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 20:58

O Carnaval

 

Tempo curto e talvez por isso aproveitado com avidez e desbragamento. É o tempo das máscaras que cada vez chamam menos a atenção pelo facto de também serem usadas, por muitos, durante todo o ano.

 

Há a máscara do “importante”, sempre no topo do progresso, com ar convicto, vivendo como o yuppie americano, preferindo «ter» e «parecer» do que «ser».

 

Há a máscara do bem informado – tem opinião irrefutável, segundo a sua óptica, sobre tudo: política, religião, desporto, economia, etc. Está sempre na «crista da onda».

 

A história da Humanidade está ligada à história da procura da verdade nos mais variados campos. A verdade atrai o homem e, se ainda tem um pouco de dignidade, nada o fere tanto como dizer-lhe: «mentiste». Ninguém gosta que lhe chamem mentiroso, mesmo que tenha a consciência de o ser.

 

Ora, para mim, as máscaras são formas de mentira, pois não só escondem a realidade como nos mostram uma outra coisa bem diferente. Umas vezes as máscaras favorecem quem as usa, por exemplo: uma senhora cheia de rugas no rosto e que aparece com uma máscara de uma rapariga de 25 anos, porque recorreu a uma cirurgia plástica.

 

A mentira é como o dinheiro falso: entra em circulação, mistura-se com o verdadeiro e só vem a ser descoberto depois de consumadas as consequências nefastas que acarreta.

 

O homem tem o “instinto da verdade”. As crianças são naturalmente verdadeiras. Somos nós, os adultos, que lhes ensinamos a ser mentirosas. O pai chega a casa cansado, o que é natural, e coloca-se frente à televisão a ver um jogo de futebol onde entra o seu clube preferido. Toca o telefone e ele diz ao filho de oito anos: “Vai atender; se for para mim diz que eu não estou em casa…”. Tudo isto já foi ensaiado não vá a criança dizer, na sua ingenuidade e “instinto de verdade”: «O meu pai manda dizer que não está em casa…».

 

Os romanos eram uns apaixonados da beleza e do autêntico. Assim não admitiam defeitos nas obras de arte. Quando notavam numa escultura algum defeito, procuravam disfarçá-lo com cera. É esta a origem da palavra “sincera” – “sem cera”, ou seja, sem disfarce.

 

Vivemos actualmente num mundo onde há muitas e variadas «ceras», ou seja dissimulações: as modas, os cosméticos, as perucas, as operações plásticas por motivo de um acidente, etc. Estas são normalmente inofensivas e prendem-se com a vaidade ou o gosto de parecer bem. Este último até pode ser uma forma de consideração e caridade para com os outros. Há outras dissimulações mais graves: a do que faz crer que ganhou a lotaria ou o totoloto, para disfarçar os sinais de riqueza que ostenta e são produto de qualquer negócio menos claro, quando não de uma fraude ou «luvas» recebidas.

 

No fim da Terça-feira, acaba o Carnaval e portanto o tempo das máscaras carnavalescas, mas ficam as outras, as de todo o ano, pegadiças e difíceis de arrancar, ao mesmo que tempo que em muitos e muitas aparece a ressaca dos excessos cometidos ou as consequências de relações episódicas que podem mudar o itinerário de uma vida. Por isso o nosso país está no topo das estatísticas sobre mães adolescentes.

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