SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 21:19

O Rio Almonda, dos meus Sonhos

 

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

 

                                                                                  Alberto Caeiro

 

O Almonda é o rio que corre pela minha aldeia.

 

Nasce na minha aldeia, atravessa a minha aldeia e desagua na minha aldeia, porque o rio Tejo, imperial e arrogante, não o deixa entrar livremente nas suas águas e, o rio da minha aldeia, porque é altivo e soberano, alarga-se pelos campos do Paul do Boquilobo e provoca o aparecimento de uma zona húmida, rica pela flora e aves que a habitam e fazem dela um santuário integrado nas Reservas da Biosfera (UNESCO) e na Lista das Zonas Húmidas de Importância Internacional.

 

O Rio da minha aldeia é o único rio em todo o mundo que não conhece outras terras e outras gentes, por isso é só nosso e porque é só nosso, só nós o podemos amar como amamos.

 

A minha aldeia chama-se Torres Novas.

 

Nós somos humanos e como humanos que somos, não sabemos amar sem trair, e nós traímos o nosso rio que tanto nos dá sem nada pedir.

 

Emparedamo-lo com prédios e muros, por vezes quase o escondemos como se tivéssemos vergonha de o olhar, e ele indiferente a todo o mal que lhe fazemos e a toda poluição que lhe descarregamos, vai continuando o seu caminho com a altivez e dignidade de quem vem do fundo dos tempos e guardou nos recantos das suas grutas e do seu percurso, memórias que remontam do Paleolítico ao Neolítico até à nossa era, pós – cristã de Romanos e Árabes, como podemos verificar nos objectos exposto no Museu Municipal.

 

Torres Novas sem o Rio Almonda, nunca existiria, porque foi o rio que fez a minha terra. Sem a minha terra eu não existiria ou se existisse, não seria eu, seria outro.

 

Porque existo e sou o que sou, amo a minha terra e amo o rio que corre pela minha terra. Porque amo, sonho.

 

Sonho em dar ao Rio Almonda o respeito e dignidade que lhe é devida.

 

Sonhei, construir desde as Lapas até aos Riachos, um passeio pedonal que acompanhasse e contornasse todo o percurso do Rio Almonda. Aqui e acolá, com as construções que lhe fizemos teríamos que passar para a outra margem, através de pequenas pontes para prosseguir a nossa caminhada.

 

Parece uma obra quase impossível, mas não é ,  tudo depende do querer daqueles que ainda não perderam a vontade de sonhar e são capazes de imaginar o futuro.

 

É uma obra que pode ir sendo feita, em pequenos troços, consoante a disponibilidade financeira e os obstáculos físicos a vencer.

 

Eu visiono jovens de todas as idades, caminhando ao longo do rio, uns exercitando a caminhada para o futuro, outros rejuvenescendo para uma vida mais saudável.

 

Jovens pais passeando os seus filhos e ensinando-lhes a vivência de uma vida em harmonia com a Natureza.

 

O Rio e o campo, lado a lado, sem carros, uns caminhando, outros correndo, em alguns locais, equipamento prático para exercícios físicos.

 

Sou de um tempo em que o tempo se dividia em quatro estações. Hoje praticamente só existem  no calendário.

 

No tempo da minha juventude, a Primavera e o Outono tinham temperaturas, cores e aromas, que perduram ainda hoje na minha memória.

 

O Rio Almonda dos meus sonhos voltaria assim, a ser também o rio com as Primaveras e os Outonos da minha infância.

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