SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 15:45

Somos (todos) corruptos ?

 

Eu, pecador, me confesso.

 

Em 1946,com 18 anos, sou convocado para inspecção do serviço militar.

 

Na altura a trabalhar numa Companhia de seguros, com a perspectiva de a curto prazo ser promovido a 3º escriturário, não era nada conveniente, tanto do ponto de vista financeiro, como de progressão na carreira, , a interrupção para o serviço militar.

 

Depois de alguns contactos, soube que um velho sargento, morador em Algés de Baixo , a troco de 3.000$00 tentaria a isenção do serviço militar.

 

No dia da inspecção, as já reduzidas esperanças, desvaneceram-se quase por completo, quando o grupo que comigo ia à inspecção, mais parecia ter saído de um campo de concentração Nazi do que seres normais.

 

Eu praticava desporto no Ateneu Comercial de Lisboa, tinha um corpo bem musculado, era impossível ficar livre.

 

Os pobres coitados que me acompanhavam, muito envergonhados e encolhidos, por se encontrarem nus, enquanto eu com o a vontade natural de quem frequenta os balneários  de uma colectividade desportiva.

 

Quando entrei na sala de inspecção provoquei um certo alarido, com a interjeição de um dos oficiais; até que enfim um homem que se veja.

 

Recebido com cortesia e simpatia  fui respondendo sobre a minha actividade desportiva, havia pouco tempo tinha ganho o Campeonato Nacional Juniores de luta Greco-Romana.

 

Um dos oficiais chegou mesmo a dizer: Homens como este não precisavam de fazer o serviço militar.

 

Mais tarde vim a saber que tinha sido colocado no O.T.E. Organização Territorial do Exército, ficaria na reserva e só seria chamado  em caso de emergência.

 

Conforme combinado, paguei ao velho sargento os 3.000$ do acordo.

 

Mais tarde, já com 35 anos pretendendo com a família  abandonar o País e ir para a Alemanha, requeri o passaporte, tendo sido recusado porque um profissional de seguros não era suposto ter rendimentos para fazer turismo na Europa. Até Espanha, tudo bem mais não.

 

Na Companhia de Seguros, era eu que fazia a ligação com o gabinete do Drº Ramiro Valadão, no Palácio Foz, sempre que tinha que viajar.

 

Assim, entre uma cunha com uma mentira, consegui que novo pedido de passaporte, agora na qualidade de Industrial de fotografia, e com um telefonema do Gabinete para o Governo Civil, o passaporte foi emitido em menos de uma semana, para toda a Europa Ocidental.

 

O Portugal de Salazar, era o país das  cunhas, dos favores. Nada era possível obter, sem que alguém conhecesse alguém, aqui ou acolá, para obter o quer que fosse .

 

Dizem os saudosos de Salazar, que era um Homem sério e que nunca se serviu de um escudo que fosse, em proveito próprio, o que é verdade.

 

O que não dizem é que com a política dos salários baixos e da mão de obra barata, todos os que detinham algum poder desde o funcionário público a Polícia ou  GNR , todos com pleno à vontade, recebiam e até pediam determinados benefícios para que as coisas andassem mais depressa.

 

Até ir para a Alemanha, morei na zona de Benfica, vi imensas vezes os polícias que faziam o giro da noite entrar nas pastelarias ou restaurantes , comerem uma sandes de presunto e uma cerveja e despedirem-se com um até amanhã. Dizia-me o proprietário que era o preço a pagar, para fecharem os olhos ao horário e poderem atender uns clientes mais depois da meia noite.

 

Quando o Chefe da esquadra fazia anos, lá vinha o recado: o Chefe amanhã faz anos, veja lá não se esqueça. No Natal e Ano Novo, o costume.

 

A corrupção,  no tempo da Ditadura, foi uma prática institucionalizada e praticada por toda a sociedade.

 

Hoje que tanto se clama e reclama, com razão, por este cancro que dilacera a Sociedade Portuguesa, não podemos nem devemos esquecer o passado que moldou o que somos e porque somos.

 

Serve isto de desculpa ?, não, não serve, mas há vícios tão entranhados na Sociedade Portuguesa e burocracias ainda não erradicadas, que vão alimentando velhos hábitos.

 

È com as “ Lojas do Cidadão “,formação de “ Empresa na  hora “ Cartão do Cidadão, Simplex, e outras medidas profiláticas, que se vão eliminando estes vícios e burocracias, que já não se justificam com a modernidade dos tempos que vivemos, nem com a democracia que estamos construindo.

 

Na época Natalícia e Ano Novo, que agora terminou, quantas dezenas de milhar de garrafas de Porto e Whisky, foram vendidas, para obsequiar alguém por um favor concedido ou que em breve iremos necessitar ? .

 

Que diferença faz entre o Mercedes de alta cilindrada oferecido pelo Godinho das sucatas, da “ Face Oculta “ ou garrafa do Porto ou Whisky ? .

 

É tudo do mesmo, só difere nos valores do que se dá e nos benefícios que se pretende obter.

 

Ponhamos a mão na consciência e com honestidade, todos nós de alguma forma e de alguma maneira também já cometemos alguns destes pecados.

 

Serve isto de desculpa? . Não, não serve, mas só com verdadeira consciência do que fomos e do que somos, poderemos colectivamente combater os males da nossa Sociedade, para que num futuro que se deseja breve, possamos todos andar de  “ FACE DESCOBERTA “. 

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