SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 9 Agosto 2020, 09:29

Padre ricardo Madeira assinala 16 anos de ordenação e celebra junto dos Torrejanos

“…que os torrejanos se saibam unir em prol da comunidade, em prol da terra, para marcarem presença na região. Que tenham a capacidade de fazer, olhando mais para o futuro do que para o passado. Que sejam capazes de sonhar e de concretizar.” (Padre Ricardo Madeira)

Em entrevista ao jornal “O Almonda”, o PAdrE ricArdO MAdEirA apela à capacidade de fazer acontecer dos torrejanos. cinco anos após a chegada a Torres Novas, destaca a renovação da catequese com a grande melhoria. E para o futuro sonha com a concretização das obras do Salvador. Mas sobretudo, espera conseguir continuar a acompanhar a comunidade, a apoiar as famílias e a dar força à juventude no caminho da vida, que diz não ter de ser solitário.

Padre Ricardo, o que é que significa para si a celebração deste 16º Aniversário Sacerdotal?

É renovar aquilo que celebrei desde a primeira hora. Saber que a dimensão sacerdotal não é uma conquista pessoal, mas um dom de Deus para se viver interiormente e também depois exteriormente. E é para se viver com os outros e para os outros. Viver numa relação íntima com Deus que, depois, inevitavelmente vai ao encontro dos outros. No fundo, é reviver todos os anos que antecedem esta celebração, até chegar aqui. E tentar viver com a frescura da primeira hora e do primeiro dia. Mas também, já com o conhecimento e com a grandeza deste historial de 16 anos. Em que altura da sua vida é que sentiu que queria ser Padre e seguir esta missão? É uma daquelas coisas que não se sabe num momento mas descobrese numa história. Na minha juventude fui tendo alguns apelos e por isso entre os 16 e os 19 anos dei o passo da entrada. E depois, não é logo uma confirmação. A confirmação acontece pelas mãos da Igreja e nós acreditamos que há uma mediação. Porque, “eu não sou Padre porque quero e por isso vou estudar muito”. Fiz isso, sim, mas com a Igreja e com acompanhamento do Seminário, dos colegas padres e dos formadores que depois, chegado o momento, nos propõem a fazer o pedido. E esse pedido é feito por nós. O momento, é quando a Igreja diz “sim” ao nosso pedido. A primeira confirmação acontece naquele que é o primeiro momento de consgração, a 22 de junho 2003 a ordenação diaconal. Tendo acontecido a 20 de junho de 2004 a ordenação sacerdotal. Como é que a família reagiu a esta sua decisão? A família apoioume a acompanhoume sempre. Era uma família tradicional e cristã, simples, mas a viver a fé.

Acompanharamme sempre na catequese e na missa. E naquele momento inicial, foi uma adesão fácil. Só houve um momento, quando eu falei em ir para as missões, em que a família reagiu um bocadinho. Mas depois, tudo foi fácil. Entrei para o Seminário em 1996 e em 2004 fui à Guiné com um grupo de jovens. Mas nessa altura já não havia dificuldade nenhuma, porque eles já estavam preparados e eu já tinha feito todo um percurso. Claramente que a família me acompanhou sempre, como acompanha hoje ainda. Que missão é esta que abraçou e que o faz viver em comunhão com a comunidade? Viver esta missão junto da comunidade é uma arte. Significa antes de mais uma entrega de amor e só assim é que eu a entendo. Uma entrega de amor e de serviço, com grande disponibilidade. E posso dizer várias coisas que significam essa entrega. Uma coisa é celebrar missas, casamentos, batizados e funerais. Já é muito, mas é só uma parte. Outra coisa é, nesta altura de pandemia, levar os trabalhos de casa aos meninos que não tinham internet, distribuir alimentação aos que precisavam. Ou, por exemplo, ajudar a puxar por um jornal, ajudar um jovem que está a ficar mais perdido, auxiliar uma família que precisa de apoio ou que se alegra com algum acontecimento. Isso é estar com a comunidade e tem muito que ver com aquilo que é a vivência de cada um dos padres com os seus paroquianos, mas também com aqueles que no fundo são a sua família e os seus amigos. E amigos no sentido que Jesus diz, “Já não vos chamo servos, mas amigos”. Por isso, viver a comunidade é darse por amor e servir oferecendo esse amor. E não é unívoco, ou seja, depende de nós e da comunidade. Quanto mais nós puxamos pela comunidade, mais a comunidade se sente desafiada, também a puxar por nós.

Como é que chegou a Torres Novas? Não foi um pedido meu. Depende do que são as necessidades da Igreja. Vim do Entroncamento, onde estava a coordenar uma equipa, integrando as comunidades do Entroncamento, da Barquinha e da Golegã. Mas foime pedido para vir para Torres Novas, porque o sacerdote que estava cá ia sair e era preciso alguém. E como é que foi recebido pelas pessoas de Torres Novas? Fui bem recebido. Eu vim com outro colega, o Padre Durval, já estava cá o Padre Frutuoso e havia alguma expetativa. Porque nos últimos 10 anos, Torres Novas tinha sofrido uma mudança muito grande de padres. As pessoas foram achando que era mais um, ou mais dois ou três que vinham. E afinal, estamos já a completar o quinto ano desde que cheguei a Torres Novas. E é para continuar. Até quando, não sei, porque não depende da minha vontade. Depende sim, da vontade de Deus, que se manifesta pela mão do Bispo, que tem que gerir as suas comunidades dentro da Diocese. Portanto, eu estarei cá até que o Bispo assim entenda que sou necessário. Entre as suas diferentes missões, há uma que abraçou mais recentemente. O jornal “O Almonda”. Como é que surge este projeto? O jornal “O Almonda” caiume

 nas mãos enquanto responsável pela Gráfica Almondina. Foram vários anos a combater por um projeto que tinha de ganhar sustentabilidade. Porque era e é um meio valioso, enquanto guardião da história da cidade e do concelho de Torres Novas, assim como da região. Mas ao mesmo tempo, estava a ser um peso para a entidade que o suportava – inicialmente, para a Paróquia de S. Pedro e depois para a Gráfica Almondina.

Com a saída do Padre Durval da direção do jornal e não havendo mais ninguém que abraçasse este projeto, foime colocada a questão. E eu fiquei como Diretor, com a responsabilidade de administrar o jornal. E foi mesmo por não haver mais ninguém. Mas obviamente que no fim de estar nas coisas, eu também não volto as costas.

Chegou uma altura em que foi preciso tomar decisões. Ou o jornal se tornava viável, ou o jornal morria. E de maneira nenhuma seria esse o meu sentido. Por isso, acreditei que era possível e aí sim, foi uma luta muito solitária, até ao momento em que foi preciso assumir que o jornal tinha de mudar. Foi preciso tomar decisões muito difíceis, exigentes e até com consequências que significaram mudanças radicais para o jornal. Mas hoje posso dizer que foi uma luta ganha, porque o jornal ganhou vida. O jornal voltou a unir a cidade. O Padre Ricardo, sendo uma figura reconhecida e estimada em Torres Novas e com grande ligação às pessoas, acaba também por ter um papel muito ativo na vida pública do concelho. Alguma vez se imaginou a assumir um cargo político no futuro? Não. Nós na Igreja gostamos de separar as questões. Uma situação é o “cuidar da coisa pública” e aí, eu também estou presente. Se olharmos para o Papa, o Papa não é um político, mas é um líder mundial. O padre, na sua comunidade, não é um político. Mas tem que ser um líder da comunidade. Tem que testemunhar aquele que é o caminho a seguir, denunciar as injustiças e promover o bem. Por isso, o sentido estrito da política não. Mas o sentido de uma liderança que possa marcar a comunidade e a cidade, disso o padre não pode fugir. Que projetos gostaria de ver concretizados num futuro próximo? Há vários projetos. O projeto pessoal é ser feliz e fazer os outros felizes, amando e servindo.

Agora, em termos de projetos paroquiais, há muitos. E as obras que gostaria de ver concretizadas, são o caminho para que o resto aconteça. Por exemplo, a recuperação do Salvador, que é um sonho que eu gostaria de realizar. Mas o grande projeto é recuperar a catequese, as famílias e dar força à juventude. A renovação da igreja no coração das pessoas, sabendo que não estão sozinhas no caminho. Ajudar a que as pessoas vivam também elas felizes, o caminho da vida. E até agora, qual foi o projeto que considera de maior importância desde que chegou a Torres Novas? Sem dúvida, a renovação da catequese. Só na cidade, temos aproximadamente 500 crianças, adolescentes e jovens, com mais de 40 catequistas. E posso dizer que nem a pandemia apagou a Igreja na cidade. Porque conseguimos através das novas tecnologias, estar sempre próximos da comunidade. Que mensagem gostava de deixar às suas comunidades? Que se deixem trespassar pelo amor que brota do coração de Jesus.

Por este amor que nos move, que nos une e que no fundo é gerador de vida. Que estas comunidades se deixem tocar pelo amor de Deus, que tudo faz mexer. Aliás, todos percebemos que o grande motor é o amor humano, que brota daquilo que se entende, vive e experimenta, que é o amor de Deus derramado no coração de cada um. E que os torrejanos se saibam unir em prol da comunidade, em prol da terra, para marcarem presença na região. Que tenham a capacidade de fazer, olhando mais para o futuro do que para o passado. Que sejam capazes de sonhar e de concretizar.

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