SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 11 Agosto 2020, 01:42

“Manel Dias” reabre as portas em regime de take away

“É como diz o outro, se não enriqueci até hoje, também já não vou enriquecer. Por isso, só que o negócio vá mexendo qualquer coisa, já é bom. Desde que chegue para pagar às funcionárias e para garantir as despesas, está tudo bem. Estou tranquilo.”

Em tempo de pandemia, “Manel Dias” cede ao pedido dos clientes e continua a servir almoços e jantares em regime de take away. Apesar de saber que no fim, feitas as contas, não vai ganhar muito mais do que o suficiente para fazer face aos gastos. Aos 28 anos aceitou o desafio de “agarrar o negócio”. Na altura, corria 1972 e trabalhava na cantina dos “Claras”, antiga empresa de transportes, em Torres Novas. Juntou o dinheiro que ganhou no Ultramar e comprou “uma vida nova”.

Depressa fez do restaurante “Adega Regional” uma casa de amigos, onde há quem diga, se come o melhor frango assado da cidade. O frango do “Manel Dias”.

Nome que não é seu de batismo, mas que herdou do antigo proprietário, a partir do dia em que serviu as primeiras refeições. Hoje, por culpa da pandemia e depois de ter fechado as portas durante quinze dias, só serve ao balcão e em regime de take away. Com rigorosas medidas de segurança. Para salvaguardar clientes e funcionários.
“Abri no dia 1 de Abril porque os clientes me pediram. O telefone não parava de tocar. Diziam-me que não conseguiam comer frango como o meu em lado nenhum”, explica Manuel Reis Pereira – este sim, o seu nome verdadeiro – sem negar a satisfação por voltar a servir os seus clientes: “Os meus
clientes, vejo-os como pessoas amigas. Orgulho-me de dizer que nunca tive uma reclamação nesta casa. Porque sempre servi bem. Os produtos são de primeira qualidade e as pessoas são bem tratadas”.

Homem de conversa fácil e sorriso afável, o senhor Manel não se deixa intimidar facilmente pelos cenários menos positivos que lhe são apresentados face às consequências da atual crise pandémica para o setor da restauração. Diz-se consciente da realidade e acredita que “isto nunca vai voltar a ser o que foi”, mas do alto dos seus 76 anos, responde sem reservas: “É como diz o outro, se não enriqueci até hoje, também já não vou enriquecer. Por isso, só que o negócio vá mexendo qualquer coisa, já é bom. Desde que chegue para pagar às funcionárias e para garantir as despesas, está tudo bem. Estou tranquilo.”

Quanto ao futuro, diz que não tem nada para pedir. E é ao passado que o senhor Manel vai buscar as melhores recordações. Porque, mesmo que tenham sido tempos de trabalho árduo, foram também, anos de grandes alegrias: “Naquela altura eu tinha a casa sempre cheia e com boa clientela. Chegava a sair daqui depois das duas horas da manhã e no dia seguinte, bem cedo, já cá estava outra vez. Trabalhava-se muito”. E aos fins de semana, não tinha mãos a medir: “Eram os casamentos e os batizados. Cheguei a fazer três casamentos num dia.

Faziam-se aqui no pavilhão dos Claras, em salões de festas das aldeias ou em casa das pessoas”. Passados 48 anos, diz o senhor Manel, o negócio mantém-se de boa saúde e garante que enquanto tiver forças, há
de continuar a servir os seus clientes e amigos: “Eu gosto disto. Ganhei amizade a esta casa e às pessoas. Fiz a minha vida toda aqui. Vai-me custar a largar isto, um dia”. Mas, por enquanto, continua de portas abertas. E por isso, pede aos clientes que o acompanhem na caminhada. Mesmo em tempo de pandemia: “Que continuem a vir, que eu procurarei servi-los da melhor forma possível. E que não tenham receio, porque cumprimos as regras. Eu tenho a minha viseira, as empregadas usam sempre máscara e luvas. E é tudo desinfetado.

Se até aqui sempre os tratei bem, agora vou servi-los melhor ainda”.
Quanto ao famoso frango do Manel Dias, garante que não há segredo no tempero e que nada há a saber: “As pessoas às vezes querem inventar e usam tudo e mais alguma coisa para temperar o frango. E isto não tem segredo nenhum. É a qualidade dos produtos e a mão de quem assa”.
Carla Paixão e Nuno Vasco

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