SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 10 Agosto 2020, 20:44

Incêndios

O trágico incêndio que enlutou Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos e concelhos envolventes no dia 17 de Junho de 2017. Antes de iniciar o artigo propriamente dito, entendo dever fazer a seguinte declaração de interesses: depois de um grande interregno na colaboração com o jornal O Almonda, interregno esse que lamentei profunda e interiormente e que não quero recordar, desta vez, a pedido do Director Nuno Vasco aceitei o desafio de escrever algumas palavras acerca da tragédia de Pedrógão Grande. É a primeira vez que escrevo sobre um assunto a pedido, porque noutros tempos nunca aceitei encomendas que ao longo dos anos, de vez em quando me tentaram fazer, por diversas formas, várias pessoas, algumas até amigas, mas a que nunca respondi afirmativamente. Neste caso concreto, e porque se trata de uma tragédia que muito me impressionou, aliás, na altura, concretamente em 26.06.17, neste mesmo jornal publiquei um artigo onde partilhei a minha opinião sobre a referida tragédia e sobre as razões que levaram a que aquela desgraça caísse sobre aqueles povos.

Assim, e ainda porque a minha envolvência pessoal com os Bombeiros de Portugal durou algumas dezenas de anos, sinto-me na obrigação de aceitar este desafio porque, apesar de afastado da grande família dos Bombeiros Portugueses, ainda sinto a sensibilidade suficiente para voltar a analisar aqueles fatídicos dias. Eis a razão deste escrito que faço a título excepcional, à atenção dos leitores, já que são eles a razão primeira de qualquer jornal. Passaram três anos sobre aquele inferno que matou 66 pessoas, deixou mais de 250 feridos, alguns ainda em recuperação ao fim destes anos e o que me preocupa mais, porque já tudo foi dito, mesmo que ainda não tenham sido apurados eventuais culpados, apesar de terem sido constituídos alguns arguidos. É certo que a Justiça pode pecar por ser demorada, mas cumprirá a sua função. É tudo uma questão de tempo. Porém, lamentável e inexplicavelmente, de entre os arguidos ainda está o Comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, como se fosse ele o responsável por aquela tragédia. Neste caso também temos de dar tempo ao tempo. O problema principal que envolve Pedrógão e concelhos limítrofes, para além da espera da Justiça é que depois de tantas promessas nada foi feito para que a tragédia não se pudesse repetir.

O jornal Público em 16 do corrente publicou uma reportagem sobre aquela tragédia a que deu o título “Pedrógão foi “ontem”, mas pode voltar a acontecer amanhã”. E foi fácil encontrar este título para a reportagem. Por exemplo, um dos Bombeiros de Castanheira de Pera, ferido naquela fatídica estrada 2361 disse: “Temos os terrenos praticamente prontos a arder”. A notícia adianta que ele é um dos feridos que seguia com mais quatro colegas num dos carros da corporação apanhado pelas chamas – um dele não sobreviveu e os outros também ficaram feridos. Estes sobreviventes olham para aquele dia em que combateram o fogo na linha da frente como o primeiro do resto de uma vida a tentarem recuperar diariamente das mazelas físicas e psicológicas com que ficaram.” “E acreditam que, num  futuro próximo, ao 17 de Junho de 2017 pode juntar-se uma nova data trágica para esta região. Na zona atingida continuam a avistar-se árvores queimadas a tentarem equilibrar-se e a vegetação nalgumas zonas voltou a passar das bermas para a estrada. De olhos postos no terreno, para estes bombeiros é só uma questão de tempo para voltar a acontecer uma “tragédia”.

Se tudo se mantiver constante com a falta de limpeza das áreas florestais acreditam que o esforço que fizeram pode ter sido em “vão.” Também o Observatório Técnico Independente (OTI) alerta: o que aconteceu há três anos pode voltar a acontecer.”

Tudo isto é mau de mais para ser verdade, mas é mesmo verdade e é por isso muito preocupante. Aliás, há dias um amigo meu que passou por lá e é conhecedor da matéria em análise, fez-me uma descrição tenebrosa daquilo que viu. Por exemplo, as zonas de eucaliptal que arderam, têm neste momento o triplo, ou mais, dos eucaliptos prontos a arder de novo.

A EN 2361 fica para a história como o local onde morreram mais pessoas. Como a notícia do Público referida acima fala do Observatório Técnico Independente, entendo dever partilhar algumas palavras acerca deste Observatório, que foi criado pela Assembleia da República em 20 de Agosto de 2018 para “análise, acompanhamento e avaliação dos incêndios florestais e rurais que ocorram no território nacional” o qual, a partir da sua criação, procedeu à avaliação do Sistema de Protecção Civil no âmbito dos Incêndios Rurais bem como à elaboração de diversos Estudos Técnicos e Notas Informativas nesse mesmo âmbito. Permito-me ainda transcrever parte da Nota Final da recente Nota Informativa 2/2020 do Observatório que em poucas palavras diz muito: “Em 2017 quase todos afirmaram que as consequências que resultaram dos incêndios de Junho e Outubro desse ano não poderiam voltar a repetir-se.

Apesar das melhorias nalguns componentes do sistema não estamos seguros de que o país esteja suficientemente preparado para enfrentar eventos da mesma magnitude, sobretudo porque as variáveis determinantes permanecem sem alterações a saber: ordenamento, gestão florestal, recuperação de áreas ardidas e mitigação do risco desadequados…” ,,,”Houve passos dados desde 2017, mas um longo caminho está ainda por fazer, e o contexto de risco tende a agravarse como resultado das mudanças na paisagem e das alterações climáticas em curso. Importa, assim, agir hoje para prevenir este tipo de risco e suas consequências, a médio e longo prazo. Estas circunstâncias justificam que, três anos após 2017, o País não se possa sentir ainda satisfeito, pelo quanto já foi feito, mas antes que se concentre, com considerável e avisada humildade, no muito que está por fazer”. A terminar, uma palavra de estímulo e de admiração pelos Bombeiros Portugueses e demais forças combatentes, que no Verão têm mais visibilidade como nestes últimos dias no grande incêndio de Aljezur, muitas vezes com falta de equipamento adequado e este ano ainda mais exigente por causa da pandemia que assola o mundo.

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