SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 5 Agosto 2020, 17:27

Francisco Ribeiro, “Quadro de Honra” dos Bombeiros

“Lamento e custa-me muito dizer isto, porque fui e ainda sou voluntário, mas estou completamente convencido e não me cansarei de dizer, que o voluntariado como eu o conheci, está em vias de extinção. Mas também digo e sublinho, que os que lá estão, de certeza que gostam do que estão a fazer. Só que não têm quatro braços e não conseguem chegar a todo o lado.”

Francisco Ribeiro é, aos 79 anos, um dos elementos mais antigos, ainda em atividade, nos Bombeiros Voluntários de Torres Novas (BVTN). E é com orgulho que integra o “Quadro de Honra” daquela associação. Hoje, recorda com saudosismo e alguma emoção, os muitos anos dedicados a uma missão que diz só ser possível de cumprir com alma e coração. Em entrevista ao jornal “O Almonda”, Francisco Ribeiro regressa ao passado e resgata as memórias de “um tempo que já não volta”, numa “viagem” rica em recordações e repleta de histórias de um soldado da paz “à moda antiga”. Homem de conversa fácil, não trava as palavras quando fala de Torres Novas, a terra que lhe enche a alma e à qual dedicou uma vida inteira.

De onde é que nasce o seu interesse pela missão humanitária dos bombeiros?

Aos 16 anos eu já pensava em vir para os bombeiros. E isso tem a ver com dois vizinhos meus da Rua Miguel Arnide. Ao toque da sirene, eu via-os sair de casa e isso entusiasmou me e motivou-me. Com 18 anos, pedi autorização ao meu pai e vim para os bombeiros. As coisas foram acontecendo e aqui estou até hoje, agora num quadro diferente devido à minha idade.

Como é que era a recruta nessa altura? Era uma prova difícil?

Na recruta aprendíamos o elementar para poder apagar fogos em conjunto com os mais velhos. Nós íamos sempre na retaguarda. Porque nessa altura, a forma como se apagava fogos também era muito elementar. Só havia mangueiras, batedores e pouca água. Até da água tínhamos de ir à procura para pôr as bombas a trabalhar. E muitas das vezes, não pegavam. Depois, de um pequeno incêndio surgia uma calamidade. As deslocações para fora do perímetro de Torres Novas, com viaturas menos eficientes, também não seriam fáceis. Como é que conseguiam dar resposta atempada a esses incêndios? Há uma frase muito antiga que diz que devagar se vai ao longe. E nós tínhamos que ir devagar.

Durante muito tempo, as coisas eram assim e não mudaram muito. Mas felizmente, ao longo dos anos as coisas foram-se alterando para melhor e hoje há uma eficiência completamente diferente.

Em que é que se manifestam essas diferenças? O que é que mudou desde essa altura?

É tudo bastante diferente. Sobretudo em termos de fardamento, equipamento, material de defesa e material de ataque. Eu recordo-me das mangueiras de então. Eram estendidas, deitavam a água toda fora, inchavam e só depois é que vedavam. Hoje não. Hoje quase não há ruturas e quando as há, o material é completamente diferente. Por isso, hoje também se exige mais e melhor. Mas naquele tempo, o material era interessante. As moto-bombas, por exemplo, pegavam a pedal. Hoje são elétricas. Há uma diferença bastante grande entre o ontem de há muitos anos e os dias de hoje.

É mais fácil ser bombeiro nos tempos que correm?

Sim, eu diria que é mais fácil. Mas também se exige mais. Se o equipamento é mais  eficiente, se tem outras características para melhor, naturalmente que se exige bastante mais ao bombeiro. Naquele tempo, um ano de instrução chegava, agora é preciso mais tempo e eles aprendem muitíssimo mais.

Consegue fazer referência a algum incêndio que ainda hoje recorde pela sua magnitude?

Por exemplo o incêndio na Fábrica de Papel da Renova – em novembro de 1981. Estive lá os 10 dias. Os dois primeiros dias, aquilo foi tudo de terra a terra. Foi tudo a trabalhar e mais houvesse. Depois, os dias seguintes foram de rescaldo e prevenção. Não há palavras para o que foi aquele incêndio. Recordo-me perfeitamente de uma voz que se ouvia em toda a Renova, do engenheiro Simão, a pedir por favor que se salvasse, creio que a máquina 5, que era o cérebro daquela empresa na altura. E isso conseguiu-se. Mas foi um incêndio muito trabalhoso, com muita gente à volta dele e com muitos corpos de bombeiros aqui da região.

Não eram menos de 12 corporações de certeza. Foram noites seguidas. E no grande incêndio do Palheiro dos Vieiras, em Lapas (1974), também esteve presente? Sim, também lá estive e até tenho uma história engraçada para contar desse incêndio. Nessa altura ainda era comandante o saudoso Padre Amílcar. E ele mandou chamar pessoal aqui da zona com auto-tanques, tudo e mais alguma coisa. Estava na altura de abrir os trabalhos e eu perguntei-lhe, “Mas, vamos chamar mais bombeiros para quê, se temos ali um auto-tanque enorme no rio?”. E ele tão desorientado que estava, nem se lembrava que estávamos à beira do rio. E foi de facto o rio que ajudou a colmatar aquela situação. O edifício foi de tal ordem resistente, que ainda hoje está de pé. Foram muitas horas de serviço. Foi um incêndio espetacular. Espetacular em termos de cenário, claro. Em termos de prejuízo, foi enorme, porque morreu muito gado. E o rescaldo também foi muito trabalhoso. Ter que baldear aqueles milhares de quilos de palha, foi terrível.

Ainda se recorda do “cão mascote” dos BVTN, o “Voluntário”?

Perfeitamente. O “Voluntário” tinha lugar certo num pronto-socorro que tivemos. E quando tocava o telefone e ele se apercebia que era fogo, subia para o lugar dele e esperava que o carro seguisse. Esse cão brilhava e dava-nos um gozo enorme ter um animal daquela estirpe. Era um amigo espectacular. Curiosamente, por ironia do destino, no pêlo dele, tinha um “V” em branco, no seu lombo. Era um cão fora de série.

E da antiga “Casa Escola” dos BVTN, que lembranças tem?

A Casa Escola dos bombeiros era um espaço que existia por detrás do atual edifício dos “Correios”. Inicialmente era de madeira, e claro, o tempo levou a. Mas lembro-me perfeitamente de ver os bombeiros de então, muito antes de mim, ali em exercícios. Posteriormente fez se uma outra Casa Escola em alvenaria e os bombeiros aqui da zona, principalmente os de Torres Novas e do Entroncamento, faziam aqui a instrução duas vezes por semana. Mais tarde, o mundo deu outra volta e acabou-se a Casa Escola. Hoje existe uma Casa Escola, mas é dentro do próprio quartel e muito diferente da que existiu noutros tempos, que era uma Casa Escola muito difícil. Mas valia a pena trabalhar nela, porque se aprendia muito. Prepararam-se ali muitos bombeiros voluntários. Quando regressa ao passado, percebemos que se emociona. Emociono-me porque recordo momentos da minha vida, numa idade maravilhosa. E porque já não é possível voltar atrás. Éramos todos muito amigos. Havia uma amizade extrema. Se doía a cabeça a um, doía a todos. Um não tinha fato de macaco, o outro emprestava-lhe. Não se consegue explicar e não há comparação com os dias de hoje. Consegue estabelecer uma relação entre o “espírito de voluntariado” de antigamente com o mesmo espírito nos dias que correm? Hoje em dia há muito valor, muita qualidade e muita técnica, mas o espírito voluntário, creio que não há igual, como nos anos 50 e 60. Havia um grande companheirismo, um verdadeiro espírito de missão e uma vontade permanente de fazer mais e melhor. Porque tudo era gratuito e tudo nos sabia bem. Eu recordome que nos vários incêndios em que participei, principalmente nas aldeias, havia sempre alguém que chegava com umas latas de atum, uns bocados de queijo, pão, vinho. Hoje não. Hoje têm que aparecer refeições a tempo e horas e bem confeccionadas. E ainda bem que assim é. Porque se calhar aqueles tempos é que foram maus e estes são bastante melhores. A partir dos anos 70 tudo mudou. Há um espírito de voluntariado, sim, mas com algum profissionalismo, que hoje já está bem vincado. Na sua opinião, porque é que acha que se perdeu esse espírito de voluntariado? A minha ideia não é para desmanchar prazeres ou para desmotivar quem queira vir para os bombeiros. Mas isto é tudo completamente diferente e compreendes.

Naquele tempo, havia muita indústria e muito comércio em Torres Novas e era muito rara a empresa ou loja que não tivesse um funcionário que fosse bombeiro. E mal a sirene tocava, esses homens eram dispensados para ir para os fogos. Se fosse preciso, os “Claras”, a “Casa Nery”, a “Fiação e Tecidos” e outras empresas, dispensavam dez ou doze bombeiros, durante os dias que fosse preciso para irem para os fogos.

Sem prejuízo nenhum para o bombeiro. Hoje, dificilmente as empresas os dispensam, porque eles também fazem lá falta. E isto tem muita influência. E qual é a sua ideia para o futuro dos bombeiros voluntários? Projetando o futuro a médio prazo, acredito que daqui por 10 ou 15 anos, o voluntariado seja extinto do nome dos corpos de bombeiros. Porque não é possível. Os bombeiros têm que ser profissionais, para poderem responder com maior eficiência e disponibilidade aos serviços que lhes são exigidos e que são muitos.

Lamento e custa-me muito dizer isto, porque fui e ainda sou voluntário, mas estou completamente convencido e não me cansarei de dizer que o voluntariado, como eu o conheci, está em vias de extinção. Mas também digo e sublinho que os que lá estão, de certeza que gostam do que estão a fazer.

Só que não têm quatro braços e não conseguem chegar a todo o lado. Então qual será o caminho a seguir? A municipalização dos bombeiros de Torres Novas seria uma alternativa? Isso não diria. Mas digo “estatal”. Pois se há longas décadas existem os sapadores de bombeiros em Lisboa, em Coimbra, em Braga, no Porto e em vários lados, que são profissionais por excelência, estes também têm de ser. E depois, possivelmente admitiria eu, que a parte do serviço de saúde talvez pudesse ser voluntária. Agora, a parte de exercer o socorro a tempo e horas, terá de ser profissionalizada e da responsabilidade do Estado. Os bombeiros são devidamente reconhecidos pela população? Essa pergunta é difícil de responder. Creio que há muita gente que não consegue perceber o que é o trabalho do bombeiro, seja ele voluntário ou profissional. Quem está a executar aquele trabalho de salvamento, de socorrismo, de dar o seu corpo em prol do corpo dos outros, sob grande esforço, são indivíduos que se dedicam de alma e coração a uma missão que é muito gratificante. Mas é muito difícil para as pessoas entenderem isso. A seu ver, quais é que são as características essenciais que um bombeiro deve ter? Essa pergunta tem de ser dividida em duas partes, dependendo se estamos a falar em querer ser bombeiro profissional, ou bombeiro voluntário. Claro que a exigência para um bombeiro profissional é muito maior. Tem horários a cumprir, tem outras responsabilidades. O voluntário, se quiser ser um bom voluntário, também tem de cumprir. E é aí que está a grande questão. Porque muitos dizem-se bombeiros voluntários e depois, fazem pouco ou não fazem nada. É muito importante querer saber “ser bom beiro”. Sobretudo é preciso gostar e viver isto. É preciso ter dois braços e um abraço. Faz falta “gente nova” nos Bombeiros Voluntários de Torres Novas? Os bombeiros precisam sempre de gente nova. Porque, pelo que julgo saber, há muitos que entram e dias depois estão a ir embora.

Não conseguem dar resposta às exigências. É preciso ter um estofo muito grande e saber dar de si aos outros. E hoje cada vez é mais difícil. Há muita coisa. Eu recordo-me que na minha altura, nós não tínhamos nada. Íamos jogar à bola para o Rossio de São Sebastião, descalços. E tínhamos o cinema ao sábado e ao domingo, mas só ia quem tinha dinheiro. E o bombeiro, na altura era visto como uma pessoa diferente, estimada e considerada. A motivação era maior.

O que é que significam para si os Bombeiros Voluntários de Torres Novas?

Os BVTN significam para mim uma vida inteira. Entrei aos 18 anos e ainda lá estou hoje. Não serei tão útil quanto desejava, porque com certeza não é necessário. Não sou preciso. O mal é chegar a velho. Nas visitas que faz ao quartel, costuma aconselhar os mais novos? No meu tempo, o “pequeno” levantava-se à chegada do “grande”. Hoje o “pequeno” não conhece ninguém. Não aceita opiniões. E não é só comigo, é com todos. No meu tempo havia mais humildade e davam-se a conhecer aos novos um conjunto de pessoas que muito tinham feito. Hoje, se não estiver lá a fotografia ninguém os conhece. E ainda bem que não tenho lá nenhuma fotografia porque é sinal que ainda estou vivo.

E que importância tem para si, pertencer ao Quadro de Honra dos BVTN?

É um quadro que existe e que também tem regras. Infelizmente, muita gente está no Quadro de Honra e não cumpre. Estar no Quadro de Honra obriga-nos a passar pelo quartel, a visitar o Comandante, a cumprimentar os mais novos e a dar uma opinião, se nos quiserem ouvir. É uma maneira de voltar ao quartel e recordar o passado, com orgulho. Fiz a carreira completa de um bombeiro, até chegar a 2º Comandante, mas nunca aceitei o convite para comandar a corporação. Sabia que a minha profissão não o permitia e também, humildemente, tinha a consciência de que as minhas capacidades literárias não correspondiam. Por isso, achei sempre por bem, deixar o lugar para quem merecesse mais que eu. Para além dos BVTN, o Sr. Francisco teve também uma forte ligação ao Rancho Folclórico de Torres Novas. É uma pessoa, que de certa forma está muito ligada também à cultura popular deste concelho. O maior orgulho que tenho é ser torrejano. Depois disso, é também uma grande honra para mim ter feito parte do grupo que em 1958 fundou o Rancho Folclórico de Torres Novas. Traz-me muito boas recordações e tenho muitas saudades.

A primeira vez que dancei agarrado a uma cachopa foi no rancho e é verdade que também foi por causa das cachopas que para lá fui. Será sempre uma grande referência, porque me ajudou a viver e a crescer. A mim e ao meu irmão Carlos Ribeiro, que foi também um dos obreiros. No tempo em que as bicicletas ainda não tinham motor, mas os pés andavam, íamos às aldeias, junto dos velhotes fazer recolhas de informação para modas antigas de cariz popular. E isso, muito nos honra. Mas, como os filhos da terra nem sempre são bem tratados e quem não se sente não é filho de boa gente, há uns anos decidi deixá-los fazer o que bem entendessem. Hoje estou no Rancho Folclórico “Os Camponeses da Peralva”, no concelho de Tomar, onde fui muito bem recebido e onde sou muito bem tratado. É essa sua paixão por Torres Novas que o faz ser tão crítico em relação ao que vai acontecendo no concelho? Sim, sem dúvida. E por isso, de vez em quando atrevo-me a fazer alguns comentários nas redes sociais sobre esta terra e se calhar devia era estar quieto.

Mas tudo o que eu tento dizer em relação à minha terra é com amor. O que faz falta a Torres Novas é mais carolice e gente que goste daquilo que faz. Há muita gente a servir, mas são servidos. Já não há presidentes como havia dantes, que estavam nas câmaras por amor à terra que os viu nascer.

Quer deixar uma mensagem ao jornal “O Almonda” e aos nossos leitores?

O jornal “O Almonda” é muito importante para mim. O que mais me sensibiliza quando falo deste jornal, é que em terras da Guiné, na guerra colonial, “O Almonda” chegava-me lá. Eu sabia coisas da minha terra através deste jornal. E isso, eu nunca esqueço. “O Almonda” é um jornal que vai ao mundo inteiro. Como todos nós sabemos, é um jornal pobre, mas traz aqui hoje pessoas que eu conheço bem e que são muito ricas em espírito e em vontade de fazer mais e melhor. Gostei muito de estar convosco.

Carla Paixão e Nuno Vasco

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