SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 4 Agosto 2020, 06:12

Gonçalo Neves – Triatleta e Treinador, 48 anos

Os atletas são conhecidos por ser aquelas pessoas que conseguem prevalecer nas suas ambições e na sua determinação, para além da dificuldade… Que sejam resilientes e que mantenham o foco, tentando perceber, cada um à sua maneira, quais serão as melhores estratégias para o conseguirem fazer.”

1. Eu sou fruto da organização desportiva torrejana. Por volta de 1976, quando ainda se vivia toda aquela liberdade recente-mente adquirida e todo aquele desenvolvimento desportivo que aconteceu sem ser no alinhamento do Estado Novo, comecei a praticar deporto na Zona Alta, com a ginástica artística e ao mesmo tempo com a corrida. E ali me mantive durante muitos anos, com razoável sucesso. Fui Campeão várias vezes, tanto numa modalidade como noutra. Entretanto, a oferta desportiva aumentou bastante e fui experimentando outras coisas. A natação, o rugby, o ténis, o voleibol. Mas depois, por volta dos meus 16 anos, entrei para a canoagem. E na canoagem, fui Campeão Distrital em todas as distâncias, desde os 500 metros até à maratona. Cheguei a fazer nessa altura, cinco ultra maratonas, que são provas de mais de 200 quilómetros. E fui até às seleções nacionais. Entretanto mete-se o triatlo aqui em Torres Novas. E eu e mais algumas personagens, quase sempre as mesmas, lá fomos evoluindo. Nessa altura, também entrei nos trabalhos da selecção nacional, com a participação em algumas provas. E entretanto, comecei a treinar muitos outros atletas, como referência o João Ferreira e o Paulo Antunes e mais uns 10 atletas que integraram as seleções nacionais. E foi o que me fez ser convidado para ser treinador da Seleção Nacional e do Centro de Alto Rendimento.

2. A motivação é esta. Aos 18 anos vi um vídeo antigo, numa cassete VHS em que mostrava o IRONMAN do Hawaii. E em 2014 comecei a pensar que ia ficar velho sem ter feito um IRONMAN. E isto funcionou como motivação. Comecei à procura de hipóteses, pedi uma bicicleta emprestada, porque a minha já era antiga e agarrei-me àquilo de uma maneira que em poucos meses preparei-me e quase arrastado fui fazer o IRONMAN na África do Sul. E acabei a prova. Nesse ano, fiz outro e cheirou-me que era possível apurar-me para o Campeonato do Mundo, ou seja, para o sonho que era o IRONMAN do Hawaii, que é quase como ganhar a lotaria. No ano 2017 fiz uma primeira tentativa e não foi possível. E agarrado à motivação, no mesmo ano, fiz uma segunda tentativa e consegui concretizar o sonho e fui ao Hawaii. E há muita gente que diz que quando se chega ao Hawaii, é alcançar o máximo desta coisa, que fica o vazio e se perde a motivação. Mas não. Há sempre um objetivo. Nem que seja pela camaradagem. É o prazer de ir para a piscina, de andar de bicicleta, de andar a correr.

3. Claramente que a nível desportivo conseguimos vencer esse adversário. Consegue-se continuar a pedalar e a correr nas imediações da residência. A piscina é que é mais difícil. Agora, na parte social é muito mais difícil.

4. Tenho um plano diário e os atletas do triatlo do CNTN, todos continuaram com um plano de treino semanal, adaptado à situação. Mas como não se prevêem provas, houve um abrandar dos treinos, naturalmente. E eu, como tenho filhos em idade de formação desportiva, vou acompanhando. E como sou um atleta sénior, no sentido de ser dos mais velhos, também já tenho um arcaboiço que me permite andar para a frente com essas coisas todas. Adaptámos o treino e continua-se a treinar.

6. Para o próximo ano eu mudo de escalão e ao contrário dos jovens que quando mudam de escalão, ficam sempre na mó de baixo, porque vão para o primeiro ano do escalão, aqui é ao contrário. O veterano quando muda de escalão, passa para a mó de cima. Provavelmente, o objetivo passará por ser campeão nacional de uma das distâncias, fazer algumas provas por todo o país e caso a economia o permita, tentar apurar-me novamente para o Hawaii.

7. A mensagem só pode ser uma. Eu já passei por outra crise e já passei por crises no desporto, do terminar de modalidades, por várias razões. E os atletas são conhecidos por ser pessoas que conseguem prevalecer nas suas ambições e na sua determinação, para além da dificuldade. É aquela pessoa, que para além de trabalhar, estudar, e no caso das pessoas mais velhas, ainda têm de cuidar dos filhos, e adicionalmente ainda têm de treinar. E isso é uma condição da vida. Que sejam resilientes e que mantenham o foco, tentando perceber, cada um à sua maneira, quais serão as melhores estratégias para o conseguirem fazer.

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