SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 11 Julho 2020, 22:31

O poder da cruz vem do amor

No final da quaresma e aproximação da Páscoa a cruz ganha maior relevo na vida das comunidades. Vias-sacras, procissões relacionadas com o percurso do Calvário e outras tradições piedade popular despertam adesão emocionada de muitos fiéis. Falam da dor humana, mostram a humilhação de Jesus, a debilidade de Deus. Porque são tão veneradas estas imagens de sofrimento, porque lhes são
tão apegadas as pessoas? Apetece virar o rosto para não ver a crueza dos dramas que exprimem. No entanto, somos exortados a elevar os nossos olhos para a cruz, a contemplar o Senhor no seu cruel sofrimento. Que tem de fascinante ou de didático? A verdade é que são o momento supremo da vida de Jesus, “a sua hora” como lhe chama, em que vive o mistério pascal entregando-se à morte por nós e vencendo o pecado e a morte, ressuscitando. Ao mesmo tempo manifesta a profunda solidariedade com as nossas dores e fragilidades, assumindo-as, dando-lhes sentido e iluminando-as. Só um Deus que sofre pode compreender e ajudar-nos no nosso sofrimento. Na realidade, ao longo da sua vida histórica, Jesus está sempre próximo dos sofredores, curando-os, integrando-os e erguendo-os para retomar o caminho.
Além do profundo significado religioso, as imagens da paixão do Senhor revestem um valor humano muito rico pois constituem retratos da vida real. Em todos os tempos, para muita gente, a vida é um mar de sofrimento. São as guerras, é a violência e a opressão, mesmo no seio das famílias, é a doença e o luto, são as inúmeras provações. Realmente, as pessoas revêm-se no Senhor com a cruz às costas. Por isso, o povo crente conserva e persevera na veneração e participação nestas expressões da vida dolorosa do Senhor. Ele carregou o sofrimento da humanidade e continua presente, como Cireneu, a acompanhar e a consolar, os que no seu sofrimento, a Ele recorrem. No Evangelho de São João, a cruz é a manifestação surpreendente do amor de Deus. Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigénito. Jesus, o Filho,
partilha do mesmo projeto e vo- luntariamente se entrega por nós: “Não há maior prova de amor do que dar a vida”. Pela sua entrega, Jesus transforma o significado da cruz: em vez de instrumento de suplício, torna-se manifestação do amor redentor, da misericórdia sem limites. O suplício da cruz, entendido à luz da ressurreição, é um caminho e uma fonte de vida. Nesta perspetiva, na Páscoa enfeitamos a cruz com verdura e flores para mostrar que da cruz renasce a vida para ser comunicada ao mundo inteiro. Associada à Ressurreição, à Ascensão e à Vinda do Espírito Santo, a cruz é também a glorificação de Jesus. O amor reabilita a cruz. Fixar os olhos em Jesus é interiorizar este amor e entregar-se a “Ele que me amou e se entregou por mim” (Gal 2,20). O amor vence a morte. Configurar-se com Cristo na entrega da vida é participar também na vida nova da Sua ressurreição.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Ler Mais...
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados