SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Setembro 2020, 12:27

A “Brotéria” no Exílio (2)

Sujeito a um longo interrogatório na esquadra policial, em Castelo Branco, Cândido de Azevedo Mendes foi, posteriormente, obrigado a rumar ao país vizinho com os outros presos. Nesta etapa do forçado périplo, o seu irmão Carlos de Azevedo Mendes, acompanhou os proscritos até Salamanca, onde os continuou a obsequiar (AZEVEDO, Luís Gonzaga; op. cit., págs. 26-27).

Para lá das vexações e represálias a que estiveram sujeitos, a grande preocupação dos investigadores da Companhia de Jesus centrava-se no incógnito destino a que estariam reservados os seus livros, escritos científicos e únicas colecções zoológicas e botânicas. Súmula incansável de um longo e dedicado trabalho científico em prol da resolução dos enigmas que enfermam a apaixonante criação Divina.

Os múltiplos protestos dos jesuítas endereçados aos representantes republicanos, sobre injusta apropriação, revelar-se-iam inglórios. A comissão encarregada de examinar o espólio existente no Colégio de S. Fiel, justificaria o definitivo confisco das colecções roubadas aos jesuítas, com base no pressuposto do interesse nacional. De nada valeram os argumentos dos jesuítas e da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais alertando para o facto de as colecções e apontamentos escritos apenas serem inteligíveis para os seus investigadores. A maior parte dos trabalhos encontravam-se, ainda, em fase de pesquisa, ou à espera de novos elementos para que se elaborassem as devidas conclusões da investigação. O facto de as instituições dos jesuítas e os seus investigadores não receberem nenhuma ajuda ou renumeração por parte do Estado, conferia-lhes também o direito de serem os únicos e exclusivos proprietários das colecções.

Em todas as fases do processo de sequestro do espólio dos Jesuítas o governo agiria de má-fé. A comissão de inquérito, às ordens do então Ministro da Justiça, Afonso Costa, era constituída por indivíduos ineptos (sendo o presidente da comissão um inimigo declarado da ordem religiosa) para se pronunciarem sobre o valor e utilidades das colecções científicas de S. Fiel. As suas profissões e interesses arredava-os de emitirem qualquer juízo imparcial ou de teor científico. O resultado foi uma célere apreciação do espólio, sem que daí se procedesse à formulação do respectivo relatório que salvaguardaria a decisão unilateral de não restituir as colecções e livros aos jesuítas.

Um uníssono coro de protestos e de desencanto pela nova ordem triunfante ecoaram no meio científico e através de reconhecidas personalidades, acusando o governo de ter cometido uma “iniquidade revoltante e [um] crime lesa ciência”. Segundo o diário republicano de Lisboa “A Capital”: (…) A espoliação que [os jesuítas] sofreram é absolutamente injustificável. Essas colecções representam o trabalho pessoal, puramente científico, que nada tem a ver com o jesuitismo. A confiscação que lhes fizeram chama-se em bom português, um roubo.” (AZEVEDO, Cândido Mendes de; “A Brotéria no Exílio”, pág. 39).

De todos os cantos do mundo científico choveram notas de alento aos jesuítas e críticas pela forma como o governo lidou com o caso. Da Alemanha, um notabilíssimo cientista, Dr. Ew. H. Rübsaamen escreveu: “ Com grande mágoa minha tive conhecimento da grande calamidade de que foram vítimas; e reprovo de coração a falta de inteligência e a brutalidade [brutalität] com que foram arrancados de Portugal aos seus trabalhos científicos predilectos; mas espero que não será para sempre.” (op. cit., pág. 48). De Palermo, em Itália, o naturalista Teodosio de Stefani Perez escreveria ao padre Joaquim da Silva Tavares (um dos fundadores da revista Brotéria): “ Estou deveras impressionado pelos estranhos e graves dissabores que as últimas perturbações do seu belo país lhe causaram e não sei como manifestar-lhe o meu desgosto por tudo o que lhe sucedeu com grave dano pessoal e da Ciência.

Compreende-se que as repentinas mudanças políticas alterem a marcha geral e ordinária de um povo, mas de nenhum modo se compreende que no século 20 só por espírito de partido se possa maltratar a Ciência.” (AZEVEDO, Cândido; op. cit., pág. 49).

A obra do ilustre torrejano está repleta de testemunhos que indiciam insofismavelmente a inábil e nefasta decisão de um dos paladinos da República, ao expulsar e subtrair os trabalhos de uma vida dos cientistas jesuítas. O fanatismo, a má-fé e a ignorância não foram apenas apanágio de alguns períodos negros da monarquia. A República emergente, neste assunto, deu os seus primeiros passos manchada de iniquidades, “violando e postergando o que em todas as nações civilizadas se considera inviolável”: negaram aos jesuítas o direito a viver no seu país e o “direito de propriedade da justa e pacífica posse do seu fruto de trabalho” (AZEVEDO, Cândido Mendes de; op. cit.; pág. 8).

Um ano após a sua interrupção a revista “Brotéria” reapareceria no Brasil, para onde foram viver alguns dos seus redactores principais. Principalmente oriundos do Colégio de Campolide e de S. Fiel.

O ilustre torrejano, Cândido de Azevedo Mendes, ficaria durante alguns anos, em Salamanca. No país vizinho constituiria novas colecções de lepidópteros. A espoliação que sofreu, por parte do regime republicano, não tolheria a sua abnegada dedicação à investigação científica.

Foi também em Espanha que retomou a sua participação na nova etapa da vida da revista “Brotéria”.

Nota: Curiosamente, no livro citado do ilustre torrejano, os seus dois últimos nomes aparecem trocados. Facto que se repete na outra obra, escrita também no exílio, “Resposta ao relatório do Advogado Sr. José Ramos Preto”, de 1911.

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