SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Setembro 2020, 13:26

A Conferência do Dr. Ricardo Jorge no Polígono de Tancos

Quando se fala na Grande Guerra (1914-1918) é justo lembrar a contribuição dos médicos portugueses. O seu saber técnico e teórico possibilitaram minorar a perda de milhares de vidas humanas nos campos de batalha. Sem as suas medidas profilácticas de higiene e correcta intervenção aos estropiados da guerra o número de mortos atingiria proporções avassaladoras.

Neste capítulo são dignos de referência os trabalhos e estudos feitos pelos eminentes especialistas nacionais, Dr. Ricardo Jorge (1858-1939) e pelo nosso Nobel da Medicina, o Dr. Egas Moniz (1874-1955). O primeiro, na área da higiene e saúde pública. Já o segundo, no campo da cirurgia, com a reconhecida obra “ A Neurologia na Guerra” (1917).

Antes do Corpo Expedicionário Português rumar a França, o Dr. Ricardo Jorge desdobrou a sua actividade de reconhecido higienista mundial pelos campos de batalha em território francês e pela presença no “Polígono de Tancos”. Visita que teve como objectivo divulgar “as novas da sanidade” ao corpo médico militar português. Ainda prisioneiro de práticas ancestrais que contribuíram, em épocas não muito distantes, para a elevada mortandade de soldados e populações que intervieram nos diversos conflitos bélicos.

A palestra do Dr. Ricardo Jorge, em Tancos, alertava para os perigos das doenças e a explosão de infecções que alastram nos campos de batalha, pelo pouco cuidado que se colocava nas condições sanitárias e de higiene dos militares. Chegando no seu estudo à constatação de que morria-se mais em virtude do flagelos das doenças do que pelo fogo das armas (JORGE, Ricardo; “ Sanidade em Campanha- Conferências proferidas no acampamento de Tancos e na Faculdade de Medicina de Lisboa em Julho e Agosto de 1916”, Lisboa, 1917, pág. 13).

Os dois primeiros quadros de Ricardo Jorge, insertos no texto da conferência, são bastante sugestivos: a partir do momento em que os países beligerantes começaram a ter maiores preocupações em torno dos factores sanitários a mortalidade por doença foi decrescendo. O primeiro caso demonstrativo em que a “letalidade por morbidez se encontra abaixo da letalidade por peleja na guerra” aconteceu na guerra da Manchúria, em 1904-05 (op. cit., pág. 16). Graças ao “esforço feliz do corpo sanitário do exército [japonês], admiravelmente organizado, treinado, e equipado (op. cit. pág. 16). Já em 1870, na guerra franco-prussiana, tinha ocorrido uma situação idêntica. Mas o curto tempo de duração do confronto torna, segundo Ricardo Jorge, os dados pouco susceptíveis a ilações seguras.

O eminente médico portuense (na altura da epidemia da peste no Porto (1899), a cidade invicta pretendeu linchar o reconhecido epidemiologista) considerava o “Nippon guerreiro” como o “inaugurador em acção da sanidade moderna em campanha (op. cit., pág. 16). Tornava-se claro que a profilaxia sanitária “protegia os homens contra os ataques das doenças”( op. cit., pág. 19). Atenuando os efeitos das moléstias démicas e doenças gregárias resultantes do enorme aglomerado humano que as guerras proporcionavam. Foram os seus efeitos devastadores que “causaram a enorme prostração da Alemanha depois da Guerra dos Trinta Anos. As epidemias mortíferas prolongaram-se em tempo de paz, continuando a derrubar os regressados combatentes e os desprevenidos cidadãos (op. cit., pág. 20).

Para Ricardo Jorge a Grande Guerra apresentava-se como um enorme desafio: “ dado o espantoso acúmulo de tropas nas frentes, sobretudo nas trincheiras, como na antiga guerra parada dos assédios, e dadas as mesclas de exércitos carreados de toda a terra e de todas as raças, trazendo na bagagem os vírus de origem “. As medidas sanitárias tinham como papel crucial travar a proliferação das mortíferas infecções (op. cit. pág. 21).

Pelo que foi dado a observar a Ricardo Jorge, na sua primeira visitas a França, os países beligerantes não descuraram este importante pormenor. Investindo fortemente em acções de natureza sanitária. O médico portuense viu o sector inglês, acantonado na Flandres, como o paradigma do supra-sumo da salubrização

E em Portugal? O que se estava a fazer na educação sanitária dos militares portugueses em Tancos? O Dr. Ricardo Jorge deparou-se com uma situação extremamente desoladora. Nem mesmo o afolhamento, medida instituída pelo Dr. Ribeiro Sanches (1699-1783), na qualidade de médico do exército russo, se praticava em Tancos: “escancarando-se a fossa primitiva e lôbrega (…). O soldado português [acocorava-se] pelo mato, rastilhando o chão de fezes e o ar de fedores. As moscas viajavam em nuvens cerradas como gafanhotos, elas [eram] o teste-objecto da salubridade do campo” (op. cit. pág. 28).

Mais: Ricardo Jorge constatou no polígono o nosso “inveterado horror da água, a custo atacado pelo progresso educativo”. Ainda se mantinha arreigada na mente lusitana os hábitos de negligência e imundície tradicionais. Os soldados nas manobras em Tancos se quisessem lavar o corpo encarolado e sujo tinham que valer-se da linfa do Tejo, onde por sinal alguns, perdido o pé no pego, pagaram com a vida o gozo da água fresca (op. cit., pág.28).

Estas impressões são contrárias às do jornalista Adelino Mendes, correspondente de “A Capital”, que afirmava ser “admirável o estado sanitário de Tancos” (“A Cooperação de Portugal na Guerra Europeia – O Milagre de Tancos”, Empresa Lusitana Editora, Lisboa, s/d, pág. 65).

As insuficiências sanitárias, existentes no campo de manobras, levaram Ricardo Jorge a apelar aos médicos portugueses “a preparar-se dignamente, para a sua apresentação na zona dos exércitos, adestrados e aparelhados de tal arte, que não [houvesse} desonra antes glória para a sua ciência e para a sua pátria” (JORGE, Ricardo, op. cit., pág. 32).

Argumentava também que era necessário “talhar o soldado português pelos moldes da higiene, torná-lo saudável… resistente às infecções (…). A tarefa implicava que lhe fosse ministrado um treino sanitário tão rigoroso como o da instrução militar” (op. cit., pág. 33).

No relatório da Comissão Técnica da Arma da Infantaria, feito após a visita a Tancos, encontra-se um rasgado elogio a esta conferência proferida, no dia 23 de Julho, pelo Dr. Ricardo Jorge aos oficiais-médicos. (SOUSA, Tenente-Coronel Pedro Marquês, “ 1916- O ano da organização do CEP para França. A mobilização Militar”, in “ Revista Militar”, Maio de 2016, II Século, 68º volume, pág. 457). Revelador das semelhantes preocupações que afligiam os inspectores e o médico português: era crucial tornar o soldado português “são e sanificado”. Para que se [apresentasse] ao lado dos aliados como homens de ânimo feito, homens de hábitos saudáveis (JORGE, Ricardo; op. cit., pág. 33).

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados