SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 13 Julho 2020, 14:17

Um Sermão do Séc. XVIII, ao Senhor Jesus de Santiago de T. Novas

A bela igreja de Santiago encerra, numa deslumbrante capela lateral, uma das imagens mais prodigiosas do legado espiritual da cristandade portuguesa. Referimo-nos à figura do Senhor Jesus Crucificado. À sua volta formaram-se diversas lendas que tiveram o condão de enriquecer o valor inestimável desta misteriosa preciosidade sacra.

Venerada pelos homens desde os tempos antigos, ao Senhor Jesus Crucificado, são-lhe atribuídas pelo povo muitas curas e milagres. Em momentos de aflição, os devotos recorrem a ela para pedir ou agradecer promessas. Nas primeiras sextas-feiras do mês, uma fé inquestionável movimenta uma multidão de crentes, a fim de prestarem-lhe a sua homenagem.

É bem conhecido o historial de preces que lhe foram endereçadas, em virtude de diferentes calamidades; a mais frequente, por motivo de seca. A primeira informação (mais à frente, divulgaremos um facto, acontecido, alguns anos antes), sobre a sua interferência milagrosa, data de 27 de Abril de 1763, como consta no arquivo da Misericórdia (igualmente, num pequeno opúsculo, impresso em 1907), e que Artur Gonçalves registou na obra “ Torres Novas – Subsídios para a sua História” (1935). Nesse dia os lavradores saíram com a imagem em procissão (talvez esta prática, tenha cimentado a usual expressão de Jesus dos Lavradores), fazendo-lhe preces pela falta de água e grande seca que assolava o concelho (pág. 390). Um facto recorrente que se manteve até à actualidade, acontecendo nos nossos dias, cortejos e procissões que envolvem a Festa da Bênção do Gado, na localidade de Riachos.

Mas as virtudes sobrenaturais do Senhor Jesus de Santiago, remontam a muitos anos atrás. Eram frequentes os pedidos, quer entre as gentes do povo ou, também, envolvendo senhores da nossa terra. Um destes casos, com um enorme impacto em Portugal, encontra-se ligado ao Infante, D. António Francisco Henrique (1695-1757). O irmão do rei D. João V e filho do antigo monarca D. Pedro II, possuía uma vasta cultura e elevada nobreza de princípios, que o tornava adorado pelo povo. Acometido por uma grave doença, a saúde do digníssimo príncipe levantou enormes preocupações no reino que, três anos antes, viu expirar a Infanta, D. Francisca Josefa (1699- 1736). A medicina revelava-se infrutífera na cura de tão amável Infante, estando a Nação já preparada para as cerimónias fúnebres.

É neste ambiente contristado que o torrejano, João Freyre Gameyro Sottomayor, capitão-mor da vila (cargo que desempenhava, em data anterior àquela que consta nas informações sobre a história local, que apontam, inicialmente, para o ano de 1748) e escrivão da Câmara, dirige um fervoroso voto à imagem do Senhor Jesus Santiago, pelas melhoras de D. António. Fá-lo na condição de súbdito e de figura próxima do infante, que era padrinho dos seus dois filhos. Deixemos aqui registadas as suas razões, que constam no introito do Sermão:

“ Senhor, não há coisa mais natural nos vassalos, que o desejarem a vida, e saúde aos seus Príncipes, e sendo-o Vossa Alteza tão perfeito, que cabalmente desempenha aquelas Régias obrigações, em que o constituíram o Céu, e a natureza, tem sem dúvida os corações para estes bem-nascidos desejos em um Príncipe tão benemérito motivos duplicados. Singularizou Vossa Alteza em mim este universal empenho de todo o reino, quando por especialíssima dignação da Sua Real Grandeza me concedeu a mercê de Ser Padrinho de dois filhos meus (…): e vinculadas estas razões da minha particular obrigação às da minha fidelidade, fizeram no meu coração mais veemente impulso, com que apenas tive a infausta notícia da perigosa enfermidade de Vossa Alteza, recorri com Fé viva à Milagrosa Imagem do Senhor JESUS de Santiago desta Vila, conhecido Propiciatório a semelhantes aflições; pedindo-lhe com íntimos suspiros de alma a conservação da importante vida de Vossa Alteza, julgando infalível o benefício, tanto que animei o voto; porque afiançava na digníssima Pessoa de Vossa Alteza para o despacho daquele merecimento, que em mim não reconhecia.”

A ardente fé colocada na prece, levou João Gameiro Sottomayor a relacionar a recuperação do Infante de Portugal, D. António, pela interferência do Senhor Jesus de Santiago. A “desejada saúde real” colocava-o em dívida para com a Sagrada Imagem, que retribuiu ao mandar dizer, em dia de São Gualberto, na igreja paroquial de Santiago, uma Oração Gratulatória pública, consagrada a Cristo Jesus Crucificado.

A 12 de Julho de 1739, a igreja de Santiago da vila de Torres Novas, achava-se apinhada de crentes, que se prestaram a ouvir o Sermão, na voz do eloquente pregador, Frei Manuel de Silveira, Doutor pela Universidade de Coimbra e regente dos estudos no Convento da Batalha. A promessa consagrada à saúde do príncipe cumpria assim o seu primeiro caminho.

Mas o entusiasmo suscitado pelas melhoras do Infante não ficou por aqui. Para que não caísse no olvido tão maravilhosa cura, João Sottomayor deu o Sermão ao prelo: “aspirando por este meio, a que não ficasse reduzido a um só acto, e a um só dia o [seu] contentamento; antes comunicado a artifícios da Imprensa na multiplicidade das cópias a toda a sucessão dos séculos o [seu] júbilo, ficasse deste modo imortal no Orbe o [seu] respeitoso afecto.”

Aprovado pelos censores do Santo Ofício, nos finais de Setembro de 1739, segue para a Oficina da Música, e da Sagrada Religião de Malta, em Lisboa, onde é impresso, com todas as licenças necessárias.

A Oração Gratulatória é um grande louvor à imagem de Cristo Jesus Crucificado, realçando a sua interferência milagrosa na cura do príncipe.  Ao longo da predicação, Frei Manuel da Silveira refere, em primeiro lugar, a lenda de São Gualberto, fazendo em seguida considerações sobre a protecção que a coroa portuguesa teve de Jesus Cristo crucificado, desde os alvores da nacionalidade.

Na maior parte do Sermão são tecidas considerações abonatórias respeitantes ao Infante D. Fernando e à dedicação do capitão- mor da vila, João Freyre Sottomayor. Foi com base na sua acrisolada fé que o príncipe pôde recuperar da convalescença.

O Sermão é, fundamentalmente, um incontornável testemunho da sua enorme devoção à imagem milagrosa do Senhor Jesus de Santiago, da vila de Torres Novas.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Ler Mais...
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados