SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 19 Outubro 2020, 23:10

Bilhete para o Pai Natal

Há algumas décadas, quando estudávamos na Bélgica, passámos um Natal na residência universitária. Apenas os estudantes estrangeiros não iam para casa durante as férias. Na noite da consoada, após jantar melhorado, um pequeno grupo resolveu ir a pé para o centro da cidade. Estávamos perto da Place du Petit Sablon, quando a neblina que nos acompanhava se desfez em chuva. Por coincidência, os sinos da Catedral de Saints-Michel-et-Gudule, ao virar da esquina, começaram a tocar e logo ficou resolvido que iríamos participar na missa-do-galo.

Acertámos em cheio. Além do nascimento do Menino Jesus, comemorava-se um qualquer evento de importância para o que agora acreditamos ter sido a Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta. Aos olhos daquela estudantada de diversas religiões, aquilo foi um assombro. Imagine-se filas de homens com vestimentas de outras eras e empunhando estandartes garridos a desfilarem pelas naves do templo. Cantavam em latim: “Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomini Tuo da gloriam” (Não para nós, Senhor, não para nós, mas para que o teu nome tenha a glória). Só mais tarde viríamos a descobrir que se tratava de um velho hino associado aos cavaleiros templários.

Perdemos o último eléctrico e regressámos pela Chaussée d’Ixelles. Já com o edifício da ex-RTBF à vista, deparámos com uma “brasserie” aberta e quase deserta. Encharcados até aos ossos, parámos para tomar um café quente e o proprietário meteu conversa. A noite ia avançada e nós sem pararmos de trocar histórias. A dado momento, dissemos que vínhamos de Portugal e ele contou ter trabalhado nas minas de cobre em Kolwezi (Congo Belga) e que, nesse tempo, a viagem marítima começava no porto de Antuérpia, fazia escala em Lisboa, e demorava semanas até o navio acostar no Lobito. Nesta cidade angolana, apanhava-se o comboio da linha de Benguela com destino a Élisabethville (actual Kisangani). Tinha uma excelente opinião dos nossos concidadãos. Só dizia bem deles.

Querido Pai Natal, assim como o dono do café do “plat pays” de Jacques Brel, também tu sabes muito bem que os portugueses não são más pessoas. Será unicamente de lamentar terem-se convertido ao consumismo e é por isso que andam com ar tristonho. Se não se acautelam, transformar-se-ão em pobrezinhos dignos de figurar no presépio do santo de Assis. Ao lado do Menino Jesus, a dormirem nas palhas do estábulo em Belém.

Toda a gente garante que as recordações, tal como as estrelas, brilham mais nesta época do ano. E a esperança combina à perfeição com o resplendor das velas que enfeitam as casas.

De acordo com essa ideia, gostaríamos que colaborasses com o Menino Jesus para pregarem uma partida aos portugueses. Em vez de os evitarem, podiam surpreendê-los com umas prenditas no sapatinho. Para levantar os ânimos.

Os nossos compatriotas podiam imitar a miudagem da América do Norte e colocar junto à lareira um copo de leite e bolachas. Quiçá um cálice de vinho do Porto e uma fatia de bolo-rei, para os alérgicos a americanices. Em troca deste acolhimento, talvez consigam uns postos de trabalho. Mesmo no Polo Norte ou…na Palestina.

Embora ninguém tenha pedido a nossa opinião, diríamos que contribuições justas e menos roubalheiras também seriam brindes muito apreciados pelo Zé Pagante.

Verás que este ano vais encontrar menos luzinhas, laços e outros adereços cá na terra. A electricidade está cara, as carteiras andam vazias e falta a vontade para grandes festanças. Sim, a comida será mais frugal, porém as famílias reunir-se-ão na mesma. Com cara alegre no meio da tormenta, porque, apesar de tudo, o que conta é a partilha à volta da mesa. Opção mais reconfortante do que todos os bens materiais.

Assim afloram à memória as recordações de tempos idos. É impossível esquecer o aroma da lenha queimada e do bacalhau cozido e acompanhado de couves apetitosas. Tudo bem regado com azeite novo e vinho do barril.

Tu, meu Pai Natal da sociedade de consumo, ou o Deus Menino dos crentes, tenham por favor um pouco de consideração pelos portugueses. Têm-se portado bastante bem e merecem um presente. Uma lembrançazinha para lhes reavivar o coração.

Sem alegria, a afabilidade não existe. Boas Festas!

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