SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 8 Agosto 2020, 02:02

A Grécia e os Gregos – 1. Prolegómenos

 

Para os gregos da antiguidade o que contava era o Homem. Como sabemos, a Grécia é a mátria dos direitos humanos e o berço da civilização ocidental.

 

Decorridos tantos séculos, as particularidades vitais desta nação ainda se revelam nas vilas e aldeias do interior, protegidas dos turistas pela dificuldade de acesso. Continua a subsistir uma enorme riqueza nas relações de convivência e um sossego que faz lembrar a vida rural no Portugal da década de cinquenta. Existem milhares de Zorbas, como o do filme de Mihalis Kakogiannis, e os campos, uns mais verdes, outros acastanhados, ainda produzem fruta famosa, como a de Argos, as célebres azeitonas de Kalamata e as uvas de Corinto.

 

O poeta Giorgos Seferis (Nobel de 1963) escreveu: “por donde quer que viaje, a Grécia fala-me ao coração”. O mesmo se passa com os visitantes. Com efeito, por muito bucólica que seja a vida provincial, há sempre quem aprecie o bulício das grandes metrópoles. Também tem o seu encanto e, no que nos toca, confessamos que Atenas é a nossa cidade preferida no Mediterrâneo Oriental. Não tem comparação, por exemplo, com o Cairo ou Beirute.

 

A parte antiga situa-se entre duas elevações: a Acrópole (acro significa alto, polis cidade) e o monte Lycabettus (dos lobos). Do cimo da Acrópole, a vista alastra-se por quilómetros ao redor.

 

Já no tempo de Aristófanes, se recomendava aos visitantes de Atenas que, em caso de se perderem, olhassem para cima e se orientassem pela Acrópole. Esta dominava fisicamente a cidade, da mesma forma como prevalecia sobre a “psyche” (alma) dos habitantes.

 

Embora a urbe ateniense, mesmo no seu apogeu, não fosse maior do que as cidades de província actuais, ali viveram alguns dos maiores pensadores da humanidade. De facto, o século de Péricles, Tucidides, Fídias, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes, etc., não foi inferior, em termos da importância dos seus génios, às melhores épocas de Florença durante o Renascimento ou à Londres de Shakespeare. Estes intelectuais viriam modificaram por completo a maneira de pensar do que hoje chamamos o espaço europeu. E não só.

 

Foram eles que defenderam a ideia de que a irracionalidade é subjugada pela inteligência, que a civilização é superior à barbárie e que e o liberalismo vencerá o totalitarismo.

 

Referência incontornável na história da arte, o governo mantinha os arquitectos sob controlo. Um comité de cinco cidadãos, supervisionava as obras públicas e os arquitectos, em princípio, trabalhavam mais pelo prestígio do que pelo dinheiro. Qualquer despesa com obras que fossem adjudicadas pela cidade tinha de ser justificada até à última dracma gasta na construção. As contas eram expostas em lugar público e se os custos excedessem os dez por cento, a diferença era subtraída ao montante pago ao arquitecto. Como os tempos mudaram! Que bom se assim fosse em Portugal. Só perderiam os autarcas corruptos e as finanças públicas não estariam no estado em que se encontram.

 

A Ágora era o centro da cidade onde convergiam, ou passavam, quase todos os caminhos. Em particular nos dias de mercado, constituía o ponto focal das transacções sociais e económicas.

 

Há visitantes que confundem a Acrópole com o Parthenon. Este não é senão um entre outros templos, enquanto o termo Acrópole abrange o conjunto religioso, a fortaleza e o tesouro nacional, situados no mesmo local. Muitos burgos helénicos possuem uma Acrópole, mas só a de Atenas tem um Parthenon.

 

Um dia em cada mês, os cidadãos de Atenas reuniam-se em assembleia na Pnyx. Muita gente desconhece que, na versão original da democracia, não havia lugar para o sufrágio universal. Tratava-se literalmente de um sistema baseado no princípio “um homem, um voto”. De facto, as mulheres não tinham direitos políticos. Nem sequer os varões com menos de 20 anos, os escravos e os estrangeiros eram considerados “homens”.

 

A grande maioria dos cidadãos não abria a boca na assembleia. Eram chamados “idiotes”  (διτης). Em grego clássico, este substantivo aplicava-se às pessoas que não participavam na vida política da cidade (πολις). Por outras palavras, alguém que não estivesse interessado na comunidade. Continua a haver muitos “idiotas”, o que explica o estado a que chegou a política nalguns países, incluindo o nosso.

 

A greve geral dos cidadãos helénicos, que ainda há pouco acabou com gás lacrimogéneo e carros incendiados, prova que ninguém lhes faz o ninho atrás da orelha. Nem sequer a demagogia do primeiro-ministro socialista Geórgios Papandréu. A situação mostra que os gregos não são “idiotas”.

 

Cada vez está mais difícil de ver o que está à vista. Um dia os portugueses também vão abrir os olhos.

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