SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 1 Outubro 2020, 05:35

Encontro com os Marsalas

 

Comprámos ontem uma garrafa de “Vito Curatolo Arini Marsala Superiore Riserva”. Tem 18 graus, portanto um teor alcoólico inferior ao dos nossos portos ou madeiras e é comercializado após estágio em barris de carvalho. Exala recordações de amêndoas, tâmaras, passas de uva e baunilha.

 

Há quem o sirva como aperitivo, porém nós acreditamos que é melhor como companheiro de meditação num serão outonal e como tema do apontamento desta semana.

 

Ora bem, se o leitor fizer parte da minoria que gosta de obsequiar os convidados com um vinho fino à sobremesa, sugerimos que, uma vez por outra, os surpreenda com um Marsala em substituição do lusitaníssimo “vintage port”.

 

É um nome famoso. Milhões de apreciadores da cozinha italiana conhecem-no, visto que é um dos elementos de base na preparação dos saborosos pratos de frango ou vitela marsala. Constitui ainda um dos ingredientes de sobremesas típicas como o tiramisu ou o zabaglione.

 

E é de lamentar que seja este o seu destino. Se por um lado é financeiramente compensador, por outro é uma humilhação do ponto de vista enológico. Também a maioria das exportações vinícolas da ilha do Dr. Alberto João Jardim conhecem igual sorte. Acabam no tacho a lume brando.

 

Porém, existem marsalas que não ficam atrás dos madeiras de preço idêntico. Deixamos de lado os portos por jogarem noutra liga. De qualquer maneira, qualquer deles, até os menos dispendiosos, podem ser servidos com frutos secos ou para acompanhar queijos de tipo Roquefort ou Gorgonzola. De um modo geral, são vinhos generosos.

 

Este vinho da Sicilia celebrizou-se nos fins do século XVIII. Tal como os seus congéneres da Madeira e de Jerez de la Frontera, foi o mercado britânico que incentivou a produção. O processo é semelhante ao das “soleras” (método “in perpetuum”) utilizadas pelos espanhóis. O envelhecimento é efectuado em barris de carvalho e à medida que se faz o engarrafamento, vai-se adicionando vinho de colheitas mais recentes.

 

Infelizmente, logo após a primeira guerra mundial, os negociantes de Marsala mataram a galinha dos ovos de ouro ao permitirem a exportação de zurrapas. Os verdadeiros mestres da arte, desistiram e mudaram de actividade. No entanto, há quem tente recuperar o prestígio de que estes néctares gozaram no passado. Hoje é fácil encontrar produtos memoráveis. Em particular os “vergine riserva” ou “stravecchio”, mas os “superiore” ou “vergine” podem servir para os caloiros nesta aprendizagem.

 

O pioneiro deste renascimento foi Marco de Bartoli, um dos poucos que apostaram na seriedade. Aproveitou para adquirir aos herdeiros das grandes adegas as reservas das  primeiras décadas do século XX. Os “vecchio samperi”, com 20, 30 ou 40 anos, sem fortificação alcoólica nem adição de mosto, são excepcionais.

 

Enquanto que, em grande medida, os vinhos da Madeira são qualificados consoante a casta (sercial, verdelho, boal e malvasia), os de Marsala são postos à venda segundo a cor, a idade e o açúcar residual. Quase todos os rótulos indicam as três características.

 

É de novo elegante partilhar um Marsala não só após as refeições, mas como aperitivo ou vinho de mesa.

 

Tal como no Douro, também os vinicultores sicilianos descobriram que os vinharrões de mesa podiam render tanto ou mais que os generosos. Basta mencionar “Barca Velha”, “Chryseia” “Duas Quintas” e logo se compreende que valem mais do que uma garrafa de porto médio.

 

Ainda esta semana, um colega demonstrou que o mesmo ocorreu na região demarcada de Marsala, ao servir-nos um “Duca di Castelmonte Tripudium Rosso 2006”, das castas Nero d’Avola, Cabernert Sauvignon e Syrah, com um pronunciado bouquet de amoras maduras e cedro. Como seria de esperar num clima mediterrânico, é um forte de 14 graus que acompanhou à perfeição uma perna de cordeiro “au jus”, mas consta que não teme confrontar-se com uma valente posta de javali.

 

Pois então! No que toca a marsalas, portos ou madeiras, há de tudo. Estes néctares inspiram afeição. Quando degustados recebem abundantes aplausos. Como se cantassem o “Nessun Dorma” melhor que o Pavarotti.

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