SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 1 Outubro 2020, 04:20

Resultado inesperado, “la grande tristesse” da França

Após a inesperada mas bem-merecida vitória da selecção lusa, fomos ler a imprensa internacional. Retivemos para título deste apontamento aquele que “Der Spiegel” (10.Jul.2016) empregou em relação ao insucesso francês: “La grande tristesse”. Assim mesmo, na língua de Molière.

A arrogância dos maus perdedores chegou ao ponto dos “bleus” terem pintado “Champions d’Europe 2016” no autocarro oficial. Julgavam que, por terem ganho à Alemanha, a taça estava no papo. Enganaram-se redondamente. Cumpre agora perguntar: para quê tanta bazófia? Pequenas ironias da vida.

Oh, prodígio dos prodígios! Estão a descobrir que o fogo queima, que o gelo se derrete ao sol e que a os coxos coxeiam. Que coisa tão estranha, a realidade!

Como se diz em português, estão “a ir para o Maneta”. Expressão sinónima de “ir à viola”. Ou de “escangalhar-se”, “estragar-se”, “perder-se e não ter recuperação”.

E vem a propósito relembrar que “Maneta” era a alcunha do General Louis-Henri Loison. Ficou célebre pelas barbaridades que cometeu. Antes de vir para a Península Ibérica, comandou a ocupação do Tirol austríaco e já tinha metido na algibeira as contribuições de guerra impostas àquela região. O Estado não viu um cêntimo.

Durante a invasão de Junot, tornou-se famoso pela sua crueldade, torturando e assassinando milhares de portugueses. Quiçá por causa das suas “façanhas”, este “herói da revolução” recebeu o título de Conde do Império, cujas mordomias incluíam numerosas rendas de terrenos em Hanôver (Alemanha).

Um “espelho” a reflectir os valores apregoados pela Revolução, dado que o seu nome está gravado no Arco do Triunfo entre os “grandes” da pátria. Deste modo, temos mais um “libertador” de povos! A França napoleónica tem sorte. Se fosse hoje, estas glorificações do imperialismo expansionista seriam proibidas.

Nos nossos dias, “La République” ainda afirma inspirar-se na “Liberté, égalité, fraternité”. Porém, é forçoso reconhecer que François Hollande enganou os eleitores. Encontra-se completamente enredado em inconsistências e contradições. Um governo de esquerda a governar à direita, com uma nova legislação do trabalho que facilita contratações e despedimentos. Os patrões poderão impor 46 horas de trabalho semanais — até 60, em circunstâncias excepcionais — em vez das 35 horas em vigor.

Em Março, cerca de milhão e meio de pessoas saíram à rua para reclamar contra este Código do Trabalho proposto pelos socialistas. Os protestos pareciam lutas de guerrilha no centro de Paris. Para se defender, o primeiro-ministro Manuel Valls declarou que o objectivo da lei era permitir que as empresas pudessem conquistar novos mercados e melhorar as receitas.

Em Abril, servimos num júri de doutoramento na Sorbonne. Pudemos comprovar o grau inenarrável de burocracia que ocasiona trapalhadas inúteis. Em pleno Quartier Latin, o mundo universitário francês estagnou no tempo. O edifício principal é bonito e pejado de história. As instalações e os equipamentos é que não se enquadram no que se espera encontrar no Século XXI. Assim se compreende que dezenas de milhares de jovens, aqui nados e criados, tenham optado por universidades britânicas, americanas, canadianas e australianas. Estes estudantes são os mais prometedores e/ou os que têm meios para financiar um curso no estrangeiro. A atracção não é apenas material. Consultaram os rankings, em diversas geografias e com metodologias diferentes, e depressa constataram a ausência de universidades francesas no topo das listas.

Embora o chauvinismo linguístico e intelectual atulhe o cérebro de alguns franceses, surpreenderam-nos os comentários de bastantes colegas. Indagávamos sobre o motivo da depressão colectiva e um deles mencionou uma ocorrência pessoal. Tinha acompanhado a mãe para registar, no posto da polícia, um roubo de que ela tinha sido vítima. Aos desabafos normais de uma senhora idosa, levaram com um “que-quer-que-eu-faça? Preencha-este-formulário “. À esposa de outro amigo tinham roubado a bolsa à saída do metropolitano, mesmo debaixo do nariz do guarda. Isto durante o dia. À noite, todos receiam utilizar os transportes públicos.

A insegurança alastra. E não é só na capital, pois é notório o aumento da criminalidade em Marselha, Toulouse, Lyon, etc..

Ao lermos no maior diário parisiense que “la France est devenue un vrai merdier”, compreendemos como seria inútil acrescentar o que quer que fosse. Em 2015, a esperança de vida caiu pela primeira vez. Ficou tudo dito.

Um país maravilhoso e com uma abundância de coisas boas, mas que se torna desagradável por falta de realismo e humildade. As “glórias” foram para o maneta. Passaram à história. Até no futebol, é preciso viver no presente.

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