SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Setembro 2020, 14:33

Andorra no inverno

O Portugal desta passagem de ano nada teve a ver com o Portugal em perpétua crise económica, para o qual as instâncias internacionais recomeçaram a apontar o dedo. Com efeito, duas semanas antes do “réveillon”, os pacotes de férias à venda nas agências de viagens já se tinham esgotado. Uma elevada percentagem de portugueses deve ter ingerido rios de champanhe para celebrar a chegada de 2016. Com imensas borbulhas.

Como não tencionávamos abusar da nossa resistência para encaixar o caudal de palermices tão típicas do reino do faz de conta, resolvemos fazer uma pausa e optámos por um itinerário de estudo por terras de “fala catalã”. Foram-nos apresentadas duas opções: Andorra e Catalunha.

De regresso à friagem canadense, hoje começamos por partilhar apontamentos sobre a primeira. Teceremos nas próximas semanas comentários sobre Barcelona e a propósito de questões mais complexas relacionadas com a eventual independência da Catalunha.

A língua nativa constitui quase sempre uma das reivindicações nacionalistas. Neste caso particular, o catalão que é o único idioma oficial do Principiado. Mas não é só a língua que determina a identidade desta nação. A primeira menção de Andorra aparece em 839, nos registros da catedral de Seu d’ Urgell, em Espanha. O co-principado foi estabelecido em 1278, quando, após longas disputas entre os Bispos de Seu e os Condes de Foix, eles concordaram que se reconheceriam um ao outro como co- príncipes do território. Os seus direitos passaram, no lado espanhol, para os sucessores do bispo. Em França, eventualmente para os reis e, após a Revolução, para os presidentes.

O país nunca foi invadido ou ocupado. O co-principado durou até 1993. Foi nessa data que o povo andorrano assumiu a sua soberania e se tornou membro de pleno direito da ONU. Manteve, porém, a ligação histórica com os co-príncipes (Bispo de Urgell e o Presidente da República Francesa). A nova constituição designa-os, em conjunto e indivisivelmente, como chefes de estado.

Com um pouco mais de quatro centenas de quilómetros quadrados, este país talvez seja conhecido apenas como um paraíso fiscal associado a compras sem impostos.

É verdade que nas ruas e travessas da capital se sucedem lojas e supermercados, onde se acotovelam multidões vindas de ambos os lados da fronteira. Ultrapassa os dez milhões o número de turistas e, além das actividades mercantis e bancárias, também as pistas de esqui andam apinhadas com frequentadores nesta época do ano. Mesmo num sábado cinzento, o centro da cidade estava pejado de gente. Mal se podia circular e nem dava para tirar fotografias.

As montanhas, que fazem parte dos Pirenéus orientais, definem o país cuja capital é uma das mais elevadas da Europa. Como se não chegasse, existem 57 picos classificados. Destes, 43 têm mais de 2.500 metros, atingindo um deles 2.946 metros de altitude.

Uma grande atracção é a Caldea, um dos maiores “spas” da Europa, com uma lagoa à temperatura constante de 32° C. e coberta por uma autêntica catedral de vidro.

O sucesso deste mini-estado estará igualmente associado à delicadeza dos habitantes, sobretudo nos meios rurais. Como notámos durante uma caminhada efectuada na “paróquia” de Sant Julià de Lòria, as pessoas não evitam os olhares dos forasteiros e por diversas vezes até ouvimos um sonoro “Bon Dia”.

Antes da visita, houve colegas que gozaram connosco ao saber que estávamos interessados neste destino. “Ah, Andorra”, disse um deles. “Nice place”. “Mas eu pensava que não gostavas das Caraíbas”. Santa ignorância!

É de admitir que foi uma escolha incomum para um residente do continente americano. Acreditamos contudo que se um país existe deve ser visto. Há quem não pense assim. Que diga ter-se aqui aborrecido, que não havia nada para fazer. Só compras e esqui.

Ora bem, nós gostámos de respirar ar fresco, fazer belas caminhadas, sentir o cheiro dos pinheiros e desfrutar da paisagem. Fora do bulício consumista, é fácil esquecer as tacanhezes humanas e apreciar a natureza. Foi o que conseguimos em Andorra, no início do Ano Novo.

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