SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 8 Agosto 2020, 10:26

Epílogo irlandês

Este é o último apontamento sobre a Ilha Esmeralda. Restam dezenas de observações, mas decidimos concluir hoje. Nas próximas semanas, abordaremos outros temas e viajaremos por outras geografias.

Durante décadas, a República da Irlanda foi um pequeno país agrícola, pobre e periférico no contexto europeu. A indústria mais importante era a das bebidas alcoólicas: cerveja Guinness e diversas marcas não menos famosas de uísque. Contudo, ninguém pode esquecer a exportação de mão-de-obra barata.

Trabalhadores polivalentes e semi-qualificados que, tal como os portugueses, aceitavam laborar em condições difíceis e a salários muito baixos. A existência deste proletariado constituiu um elemento relevante nos “booms” económicos da Grã-Bretanha. Primeiro, na explosão urbana da Inglaterra vitoriana e, após a Segunda Guerra Mundial, na reconstrução das cidades devastadas pelos bombardeamentos alemães.

No fim dos anos oitenta, a situação melhorou com a adesão à Comunidade Europeia. As transferências monetárias vindas de Bruxelas foram substanciais e utilizadas em sectores produtivos, ao contrário do que aconteceu em Portugal.

A região onde se situa a capital reflecte, de novo, o progresso da República. No bairro de Temple Bar, sucedem-se galerias, bares, restaurantes e até um comércio digno de menção. Por exemplo, existem mais de 800 “pubs” com alvará e uma energia contagiante de jovens. Gente nova aos magotes e música. Excelente música em cada canto de rua e muitos empregos nas empresas multinacionais.

Existem diversos factores que fazem que a economia se porte bem. Pelo menos em Dublin, onde se concentra a maioria da população. Mais de metade tem menos de 35 anos e cerca de 50% dos empregados possui um diploma universitário (a média europeia anda pelos 29%). É o único país da zona euro com estas percentagens. Apesar da austeridade, ou por causa dela, a economia cresce a uma velocidade de topo nos quadros de referência da Europa.

Como sabemos, ultrapassou com brio a rigorosidade imposta pelas instâncias internacionais. Sublinhe-se porém que a crise financeira foi motivada pela especulação bancária. Contrariamente ao que ocorreu e continuará a ser um facto em terras lusas, as dívidas do Estado e das autarquias não estiveram na sua origem.

Como mencionámos, quando descrevemos as nossas impressões sobre Dublin, tivemos a oportunidade de ver a exposição sobre W.B. Yeats na Biblioteca Nacional. Fomos em seguida passar uns dias em Portugal e regressámos à Irlanda. Voltámos à biblioteca e, após uma revisita, fomos jantar num restaurante numa viela que desemboca na Grafton Street. Era a segunda vez que lá comíamos e, por coincidência, a empregada que nos serviu foi a mesma. Perguntou-nos se gostávamos do poeta e falou dele com admiração. Encorajados pela familiaridade, indagámos se era estudante e ela respondeu: não, sou apenas uma empregada de mesa. Assim é a nação que produziu uma porção significativa dos mais talentosos e eminentes escritores de língua inglesa.

Continuámos a visita e, a uma centena de metros da Grafton, na margem esquerda do rio Liffey, deparámos com o despretensioso e convincente “Famine Memorial “. Um conjunto de estátuas que recorda a Grande Fome dos meados do Século XIX e cuja foto acompanha este texto.

Nenhum acontecimento histórico nacional teve um efeito mais profundo, tanto nos habitantes como nas comunidades dispersas pelo mundo. Durante a Grande Fome (1845-1849) provocada por uma sucessão de más colheitas, sobretudo de batatas, mais de um milhão de homens, mulheres e crianças morreram e outro milhão foi forçado a emigrar.

O agregado escultórico foi pago com centenas de dons. Na lista de contribuintes descobrimos antigos primeiros-ministros e presidentes (do Canadá, Suécia, Finlândia, Estados Unidos). Entre outros, lemos os nomes de Bill Clinton, Jean Chrétien e Olof Palme nas placas de bronze.

Há séculos atrás, cantores de baladas e monges itinerantes, talvez tenham percorrido os mesmos lugares que também visitámos. Terão por ventura desembarcado no ancoradouro onde trocámos dois dedos de conversa com um idoso de abundante cabeleira branca e bigode à Asterix. Cumprimentou com o tradicional “nice day!” e dissertou sobre o tempo.

“In Dublin’s fair city, where the girls are so pretty…”, é com esta frase que começa uma célebre canção conhecida por milhões de descendentes de irlandeses, seus vizinhos e amigos. As moças são na realidade bonitas e o povo simpático. No bulício da capital ou nas zonas rurais mais remotas, haverá sempre alguém para partilhar uma cavaqueira. São descomplexados, de verbo fácil, românticos, musicais, místicos, divertidos e dispostos a festejar o que quer que seja.

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