SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 8 Agosto 2020, 08:06

Natal, com música e tradições

Há minutos, ouvimos na rádio que a temperatura era de 23 negativos. Na verdade, -30° na escala de Celsius, quando entra o factor vento no cálculo. A tempestade que começou ontem ao fim da tarde, regalou-nos com meio-palmo de neve.

Frio e nevão apropriados para a estação. Com efeito, tínhamos ido almoçar com um casal amigo que também nos tinha convidado para, depois, ir a um concerto de Natal. Neste período do ano, são às centenas. Para todas as bolsas e gostos.

Este teve lugar numa igreja anglicana e abriu com a célebre “Ceremony of Carols” do compositor inglês Benjamin Britten (1913-1976). Trata-se de uma cantata para coro e harpa. As vozes eram do grupo coral de uma escola secundária a que se juntou a cantora lírica Julie Nesrallah.

Num centro comunitário, já tínhamos ouvido outro coro escolar apresentar “A Child’s Christmas in Wales” de Dylan Thomas (1914-1953). Este poeta galês descreve imagens, personagens e situações que nos fizeram recuar a uma vivência semelhante na vila de Torres Novas, na década de cinquenta. É fácil compreender a popularidade deste conto nos diferentes grupos etários, pois narra as andanças de um garoto na quadra natalícia.

As festas de fim de ano provam que vivemos num país multicultural. Não hesitamos ao afirmá-lo. No trabalho, na vizinhança, comemora-se tudo e mais alguma coisa. Desde o Hanukkah dos judeus, que é celebrado por esta altura, ao Natal dos ortodoxos que é em princípios de Janeiro.

Em casa, preparamos algumas iguarias que nos fazem recordar Portugal e às quais acrescentámos a “galette des rois” com um cálice de porto. Contudo, quando visitamos amigos e colegas, damo-nos conta da variedade de tradições. Nas famílias judaicas, acendem as menorás (candelabros de sete braços), os miúdos brincam ao rapa-tira-põe-deixa com piorras (piãozinhos), recebem “geld” (moedas de chocolate) e comem “latkes” (panquecas de batata). Os devotos do profeta Maomé celebram o Eid Ul-Adha, ou festival do sacrifício. A data é determinada pelos ciclos lunares e este ano foi há algumas semanas. Pode durar uma série de dias e é passado na mesquita e em obras de caridade. Quem tem posses, compra um borrego e divide-o em três partes: um terço é doado aos pobres, outro terço é distribuído por familiares e amigos e o último para uso próprio. Os alemães servem-nos “glühwein” (vinho quente aromatizado com especiarias) e os suecos “köttbullar” (almondegas) e seis tipos de arenques.

Na manhã do dia 25, combinamos os “waffles and strawberry sauce” da tradição dos Prices de Indianápolis, em cuja companhia passámos tantos natais, com a chávena de cacau quentinho que nos servia a nossa avó da rua da Levada. Em seguida, gostamos de ouvir a mensagem da rainha Isabel II na BBC. O Menino Jesus, a dormitar numa manjedoira de artesanato ameríndio, deve olhar-nos de través. Talvez se comova por não termos nem filhoses nem coscorões. Com o avanço da idade, tanto se nos dá.

Nalguns países, tornou-se politicamente incorrecto desejar um “Merry Christmas” (Feliz Natal). Para não ofender quem não é cristão, visto que Christmas tem a ver com Christ. Não passa pela cabeça de ninguém armar presépios em sítios públicos. Por isso, em tudo o que é oficial apenas se lê “Season’s Greetings” ou “Happy Holidays”.

Como é por puro prazer que colaboramos neste semanário e sabemos que muitos leitores são nossos conhecidos desde os tempos em que andávamos de calções e bibe, não respeitamos formalismos e damos a todos aquele abraço de sempre. Que o Menino Jesus vos traga tudo o que é bom para vós e para as vossas famílias.

Com bolo-rei ou sem ele, no inverno do Norte ou no verão dos trópicos, no calor do lar ou onde quer que estejamos, meditemos por uns momentos sobre o relevância do Natal. Um época que não deixa ninguém indiferente, pois fala ao coração dos “homens de boa vontade”. Mesmo ao dos incréus.

Boas Festas!

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