SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 7 Agosto 2020, 13:10

Um Jardineiro de Deus

Faleceu na 5ª Feira, 15.12.2011, o Sr. Cândido de Sousa, com 92 anos. Depois de tantos anos a viver em Torres Novas, estava retirado há alguns anos com a D. Maria do Carmo sua esposa, para o Casal da Fonte, sua terra natal, onde no centro da aldeia tinha casa de família e sendo um espaço mais pequeno e plano, lhe facilitava estar mais próximo da sua comunidade.

Quero aqui fazer um pequeno apontamento, acerca deste homem que conheci em criança e me habituei a ver ao longo da semana, no jardim de Torres Novas, onde com a sua equipa de trabalho tratava de adornar os espaços e cuidá-los como serviço à população; também me habituei a vê-lo, aos fins-de-semana no serviço à paróquia, na igreja de S. Pedro e S. Salvador, mas também nas iniciativas eclesiais. Tinha extremo rigor na preservação das alfaias, arrumação dos paramentos e livros litúrgicos, na salvaguarda dos silêncios no templo onde era o primeiro a chegar e o último a sair.

Recordo que teve 4 filhos: o José (já falecido), o Luis, a Fátima e a Isabel, pessoas que juntamente com a esposa acompanhava e apreciava de forma intensa e dedicada, sabendo acolher o percurso de cada um e estando sempre por perto.

Mas o Sr. Cândido era uma alma grande e a sua família era muito mais vasta…, talvez por defeito de profissão: como um jardineiro, tratava de cada um, murmurando e sonhando com o bem-estar de quem estava na sua presença. E o resultado é que junto dele todos se sentiam bem, colhendo a vida amorosa fundada na vida da Palavra evangélica que fazia morada na sua acção diária. E deixava-se ficar em silêncio, no serviço do altar ou do pároco. Chegadas as celebrações marianas, era vê-lo exuberante, no afecto e no empenho com que decorava o altar, trazendo as flores e dando solenidade aos espaços dos ritos, frutos de uma grande devoção a Maria, Nossa Senhora.

Para além destas ocupações, dava muita importância à família, à sua amada Maria do Carmo e aos amigos dos filhos. Aliás, foi por isso que me cativou, pois estando mais próximo das suas filhas que comigo partilham a espiritualidade de Chiara Lubich, sempre senti um amor particular feito de gestos simples, de sorrisos e de algumas expressões humoradas com que nos brindava, ao ver-nos ou participando de qualquer iniciativa ou actividade. E a certa altura, tendo visitado Loppiano, o centro de formação espiritual do Movimento dos Focolares perto de Florença, onde se encontrava uma das suas filhas, sentido a presença vivente de Jesus, exprimiu-se como o velho Semião do Evangelho “agora já posso morrer, porque os meus olhos viram a salvação!”

Há pouco tempo, visitei-o em sua casa, e todo contente mostrou-me o trabalho de bricollage que vinha fazendo: com as caixas dos medicamentos que ia tomando, construiu dentro do espaço da lareira, uma pequena cidade de cartão, como um presépio que era o resultado de cada dor oferecida a Deus. E ia dizendo com humor, que ainda precisava de tomar mais medicamentos, para poder construir o resto! Ou então brincava, dizendo que se sentia cada vez mais um rapaz novo.

Pode um simples homem, um simples jardineiro chegar à mais elevada sabedoria? Claro que sim, porque a verdadeira sabedoria, Deus a concede às pessoas simples que na sua humildade e escolha da caridade encontram o Espírito Santo que é fonte de Sabedoria e da mais alta contemplação.

De facto, o Sr. Cândido parecia uma criança, despreocupada com o mundo e confiante na Mãe. Acreditou profundamente na sua missão e na sua vocação como dom que quis oferecer a todos. No leito de morte, entre as flores o seu rosto era a expressão tranquila de quem finalmente chegou a casa.., a casa do Pai. E do resto já nada importa.

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